domingo, 19 de maio de 2013

50 Ton)s de cinza (Capítulo 5)


Tudo está em silêncio, as luzes estão apagadas. Estou muito cômoda e aquecida nesta cama. Que bom... Abro meus olhos, por um momento estou tranquila e serena, desfrutando do ambiente, que não conheço. Não tenho nenhuma ideia de onde estou. O travesseiro da cama tem a forma de um sol enorme. Parece-me estranhamente familiar. O quarto é grande e está luxuosamente decorado em tons marrons, dourados e bege. Já a vi isso antes. Onde? Meu ofuscado cérebro procura entre suas lembranças recentes. Droga! Estou no hotel, em Heathman... em uma suíte. Estive em uma parecida junto com Kate. Esta parece maior. Oh, droga. Estou na suíte de Christian Grey. Como cheguei até aqui?
Pouco a pouco, as imagens fragmentadas da noite começam a me torturar. A bebedeira. — OH, não, a bebedeira. A ligação. —OH, não, a ligação, meu vômito. — OH, não, eu vomitei... José e depois Christian. OH, não. Morro de vergonha. Não recordo como cheguei aqui. Estou vestindo uma camiseta, o sutiã e a calcinha. Sem as meias três quartos e nem o jeans. Droga.
Observo uma mesinha do quarto. Há um copo de suco de laranja e dois comprimidos. Ibuprofeno. Sua obsessão por controle está em todos os lugares. Levanto-me da cama e tomo os comprimidos. A verdade é que não me sinto tão mal, certamente estou muito melhor do que mereço. O suco de laranja está delicioso. Tira-me a sede e me refresca.
Ouço uns golpes na porta. Meu coração bate tão forte e minha voz quase não sai por minha boca, mas mesmo assim, Christian abre a porta e entra.
 Ah, ele estava fazendo exercício. Veste uma calça de moletom cinza que lhe cai ligeiramente sobre os quadris e uma camiseta cinza de ginástica, empapada de suor, assim como seu cabelo. Christian Grey estava suado. A ideia me parece estranha. Eu respiro profundamente e fecho os olhos. Sinto-me como uma menina de dois anos.
— Bom dia, Anastásia. Como se sente?
— Melhor do que mereço — eu murmuro.
Levanto o olhar para ele. Ele larga uma bolsa grande, de uma loja de roupas, em um divã e pega ambos os extremos da toalha que tem ao redor dos ombros. Seus impenetráveis olhos cinza me olham fixamente. Não tenho nem ideia do que está pensando, como sempre. Ele sabe esconder o que pensa e o que sente.
— Como cheguei até aqui? — pergunto-lhe em voz baixa, constrangida.
Ele senta-se num lado da cama. Está tão perto de mim que poderia tocá-lo, poderia cheirá-lo.   Minha nossa... Suor, gel e Christian. Um coquetel embriagador, muito melhor que as margaritas, agora sei por experiência.
 — Depois que você desmaiou não quis pôr em perigo o tapete de pele de meu carro te levando para a sua casa, assim te trouxe para este local. — Respondeu-me sem se alterar.
— Você me colocou na cama?
— Sim. — ele respondeu-me impassível.
— Voltei a vomitar? — pergunto-lhe em voz mais baixa.
— Não.
— Tirou-me a roupa? — eu sussurro.
— Sim. — Ele olha-me elevando uma sobrancelha e me ponho mais vermelha que nunca.
— Não fizemos...? — Eu sussurro, com a boca seca, de vergonha, mas não posso terminar a frase. Eu olho para as minhas mãos.
— Anastásia, você estava quase em coma. Necrofilia não é a minha área. Eu gosto que minhas mulheres estejam conscientes e sejam receptivas, — ele me responde secamente.
— Sinto muito.
Seus lábios esboçam um sorriso zombador.
— Foi uma noite muito divertida. Demorarei para esquecê-la.
Eu também... OH, ele estava rindo de mim, e muito... Eu não lhe pedi que viesse me buscar. Não entendo por que tenho que acabar me sentindo como a vilã do filme.
— Não tinha por que seguir meu rastro, com algum equipamento pertencente ao James Bond, que está desenvolvendo em sua companhia, — eu digo bruscamente.
Ele me olha fixamente, surpreso e, se eu não me equivoco, um pouco ofendido.
— Em primeiro lugar, a tecnologia para localizar celulares está disponível na internet. Em segundo lugar, minha empresa não investe em nenhum aparelho de vigilância, nem os fabrica. E em terceiro lugar, se não tivesse ido te buscar, certamente você teria despertado na cama do fotógrafo e, se não estou esquecido, você não estava muito entusiasmada com os métodos dele de te cortejar. — Ele disse de forma mordaz.
Métodos de me cortejar! Levanto o olhar para Christian, que me olha fixamente com olhos brilhantes, ofendidos. Eu tento morder meus lábios, mas não consigo reprimir a risada.
— De que texto medieval você tirou isso? Parece um cavaleiro andante.
Vejo que seu aborrecimento se vai. Seus olhos se adoçam, sua expressão se torna mais cálida e em seus lábios parece esboçar um sorriso.
— Não acho, Anastásia. Um cavaleiro negro, possivelmente. — Ele me diz com um sorriso zombador. — Jantou ontem?  
Seu tom é acusador. Nego com a cabeça. Que grande pecado cometi agora? Ele tem a mandíbula tensa, mas seu rosto segue impassível.
— Tem que comer. Por isso você passou mal. De verdade, é a primeira norma quando se bebe.
Passa a mão pelo cabelo, mas agora está muito nervoso.
— Vai seguir brigando?
— Estou brigando?
— Acredito que sim.
— Tem sorte que só estou falando.
— O que quer dizer?
— Bom, se fosse minha, depois do que fez ontem, não se sentaria durante uma semana. Não jantou, embebedou-se e se pôs em perigo.
Ele fecha os olhos. Por um instante o terror se reflete em seu rosto e ele estremece. Quando abre os olhos, me olha fixamente.
— Não quero nem pensar no que poderia ter acontecido.
Eu o fito com uma expressão carrancuda. O que lhe passa? Porque se importa? Se eu fosse dele... Bem, não sou. Embora possivelmente eu gostaria de sê-lo. A ideia abre caminho entre meu aborrecimento por suas palavras arrogantes. Ruborizo-me por culpa de meu caprichoso subconsciente, que dá saltos de alegria com uma saia havaiana vermelha, só de pensar que poderia ser dele.
— Não teria me acontecido nada. Estava com Kate.
— E o fotógrafo? — pergunta-me bruscamente.
Mmm... José. Em algum momento terei que conversar com ele.
— José simplesmente passou da conta.
Encolho meus ombros.
— Bem, na próxima vez que ele passar da conta, alguém deveria lhe ensinar algumas maneiras.
— É muito partidário da disciplina.  — digo-lhe entre dentes.
— OH, Anastásia, não sabe o quanto.  Fecha um pouco os olhos e ri perversamente.
Deixa-me desarmada. De repente, estou confusa e zangada, e ao mesmo tempo estou contemplando seu precioso sorriso. Uau... Estou encantada, porque eu não estou acostumada ao seu sorriso. Quase esqueço o que está me dizendo.
— Vou tomar banho. Se você não preferir tomar banho primeiro... 
Ele inclina a cabeça, ainda sorrindo. Meu coração bate acelerado e o cérebro se nega a fazer as conexões oportunas para que eu respire. Seu sorriso se faz mais amplo. Aproxima-se de mim, inclina-se e me passa o polegar pelo rosto e pelo lábio inferior.
— Respire, Anastásia, — sussurra-me. E logo se levanta e se afasta. —Em quinze minutos trarão o café da manhã. Deve estar morta de fome. Ele entra no banheiro e fecha a porta.
Solto o ar que estava segurando. Por que é tão alucinantemente atraente? Agora mesmo, me meteria na ducha com ele. Nunca havia sentido algo assim por alguém. Ele ativou meus hormônios. Arde-me a pele por onde ele passou seu dedo. Uma incômoda e dolorosa sensação me faz retorcer. Não entendo esta reação. Mmm... Desejo. É desejo. Assim se sente alguém quando se deseja.
Deixo-me cair sobre os travesseiros suaves de plumas. Se fosse minha... Ai, o que estaria disposta a fazer para ser dele? É o único homem que conseguiu acelerar o sangue em minhas veias. Mas também me põe os nervos em pé. É difícil, complexo e pouco claro. De repente, me rechaça, mais tarde, me manda livros que valem quatorze mil dólares, depois me segue no bar como se fosse um perseguidor. E no fim de tudo, passei a noite na suíte de seu hotel e me sinto segura. Protegida.
Preocupo lhe o suficiente para que venha me resgatar, de algo que equivocadamente acreditou que fosse perigoso. E ainda é um cavaleiro. É um cavaleiro branco, com armadura brilhante, resplandecente. Um herói romântico. Sir Gawain ou sir Lancelot.  Saio de sua cama e procuro freneticamente meu jeans. Abro a porta do banheiro e aparece ele, molhado e resplandecente por causa da ducha, ainda sem se barbear, com uma toalha ao redor da cintura, e ali estou eu... De calcinhas, olhando-o boquiaberta e me sentindo muito incômoda.
Surpreende-lhe que eu esteja em pé.
— Se está procurando seu jeans, mandei-o à lavanderia. — Ele me fala com um olhar impenetrável.  — Estava salpicado de vômito.
— Ah. — Fico vermelha. Por que diabos, tenho sempre que sentir-me tão deslocada?
— Mandei Taylor comprar outro e umas sapatilhas esportes. Estão nessa bolsa.
Roupa nova. Isso era realmente inesperado.
—Bom... Vou tomar banho, — eu murmuro. —Obrigada.  — Que outra coisa posso dizer? Pego a bolsa e entro correndo no banheiro para me afastar da perturbadora proximidade de Christian nu. David de Michelangelo não é nada, comparado com ele.  O banheiro está branco de vapor. Dispo-me e entro rapidamente na ducha, impaciente por sentir o jorro de água quente sobre meu corpo.
Levanto a cara para a desejada corrente. Desejo Christian Grey. Desejo-o desesperadamente. É sincero. Pela primeira vez em minha vida quero ir para cama com um homem. Quero sentir suas mãos e sua boca em meu corpo.  Ele me disse que gosta que suas mulheres estejam conscientes. Então certamente ele se deita com mulheres. Mas não tentou me beijar, como Paul e José. Não o entendo. Deseja-me? Não quis me beijar na semana passada. Pareço-lhe repulsiva? Mas estou aqui, ele me trouxe. Não entendo seu jogo. O que pensa? Dormi em sua cama a noite toda, parece-me meio doido. Tire suas conclusões, Ana. Meu subconsciente aparece com sua feia e insidiosa cara. Não dou a mínima importância.  A água quente me relaxa. Mmm... Poderia ficar debaixo do jato, neste banheiro, para sempre. Pego o gel, que cheira a Christian. É um aroma delicioso. Esfrego todo o meu corpo, imaginando que é ele quem o faz, que ele esfrega este gel pelo meu corpo, pelos seios, pela barriga e entre as coxas, com suas mãos, com seus dedos longos. Minha nossa. Meu coração dispara. E é uma sensação muito... muito prazerosa.
Ele bate na porta e levo um susto.
— Chegou o café da manhã.
— Va... valeu,  — o susto me  arrancou  cruelmente de meu sonho erótico.
Saio da ducha e pego duas toalhas. Com uma envolvo o cabelo ao estilo Carmen Miranda, e com a outra me seco a toda pressa evitando a prazerosa sensação da toalha esfregando minha pele hipersensível. Abro a bolsa. Taylor me comprou não só um jeans, mas também uma camisa azul céu, meias três quartos e roupas íntimas. Minha Nossa!
Sutiã e calcinha limpos... Descrevê-los de maneira mundana, não lhes faz justiça. São de uma marca de lingerie europeia de luxo, com desenho delicioso. Renda e seda azul celeste. Uau. Fico impressionada e um pouco intimidada. E, além disso, é exatamente do meu tamanho. Com certeza. Ruborizo-me pensando no rapaz, em uma loja de lingerie, comprando estes objetos. Pergunto-me a que outras coisas ele se dedica em suas horas de trabalho. Visto-me rapidamente. O resto da roupa também fica perfeito. Seco o cabelo com a toalha e tento desesperadamente controlá-lo, mas, como sempre, nega-se a colaborar. Minha única opção é fazer um acréscimo, mas não tenho secador de cabelo. Devo ter algo na bolsa, mas onde está? Respiro fundo. Chegou o momento de enfrentar o senhor Perturbador.  Alivia-me encontrar o quarto vazio. Procuro rapidamente minha bolsa, mas não está por aqui. Volto a respirar fundo e vou à sala de estar da suíte. É enorme. Há uma luxuosa zona para sentar-se, cheia de sofás e grandes almofadas, uma sofisticada mesinha com uma pilha grande de livros ilustrados, uma zona de estudo com o último modelo de computador e uma enorme televisão de plasma na parede. Christian está sentado à mesa de jantar, no outro extremo da sala, lendo o jornal. A sala é mais ou menos do tamanho de uma quadra de tênis. Não que eu jogue tênis, mas fui ver Kate jogar, várias vezes. Kate!
— Merda, Kate! — digo com voz rouca.
Christian eleva os olhos para mim.
— Ela sabe que está aqui e que está viva. Mandei uma mensagem pelo Eliot. — Ele diz com certa ironia.
OH, não. Recordo de sua ardente dança ontem, tirando proveito de todos os seus movimentos, exclusivamente, para seduzir o irmão de Christian Grey, nada menos. O que vai pensar sobre eu estar aqui? Nunca passei uma noite fora de casa. Está ainda com o Eliot. Ela só fez algo assim duas vezes, e nas duas vezes, foi meio doido para mim aguentar o espantoso pijama cor de rosa durante uma semana, quando terminaram. Ela vai pensar que eu também me enrolei com Christian.
Christian me olha impaciente. Veste uma camisa branca de linho, com o peito e os punhos desabotoados.
— Sente-se.  — ordena, assinalando para a mesa.
Cruzo a sala e me sento na frente dele, como me indicou. A mesa está cheia de comida.
— Não sabia do que você gosta, assim pedi um pouco de tudo.
Dedica-me um meio sorriso, como desculpa.
— É um esbanjador, — murmuro atrapalhada  pela quantidade de pratos, embora tenha fome.
— Eu sou, — diz em tom culpado.
Opto por panquecas, xarope de arce, ovos mexidos e bacon. Christian tenta ocultar um sorriso, enquanto volta o olhar a sua panqueca. A comida está deliciosa.
— Chá? — ele pergunta-me.
— Sim, por favor.
Estende um pequeno bule cheio de água quente, na xícara há uma saquinho do Twinings English Breakfast. Ele lembrou-se do chá que eu gosto.
—Tem o cabelo muito molhado.
— Não encontrei o secador, — sussurro incômoda. Não o procurei.
Christian aperta os lábios, mas não diz nada.
— Obrigada pela roupa.
— É um prazer, Anastásia. Esta cor te cai muito bem.
Ruborizo-me e olho fixamente para meus dedos.
— Sabe? Deveria aprender a receber galanteios, — ele me diz em tom fustigante.
— Deveria te dar um pouco de dinheiro pela roupa.
Ele me olha como se estivesse ofendendo-o. Sigo falando.
— Já me deste os livros, que não posso aceitar, é obvio. Mas a roupa... Por favor, me deixe que lhe pague isso, — digo tentando convencê-lo com um sorriso.
— Anastásia, eu posso fazer isso, acredite.
— Não se trata disso. Por que teria que comprar esta roupa?
— Porque posso.
Seus olhos despedem um sorriso malicioso.
— O fato de que possa não implica que deva, — respondo tranquilamente.
Ele me olha elevando uma sobrancelha, com olhos brilhantes, e de repente me dá a sensação de que estamos falando de outra coisa, mas não sei do que. E isso me recorda...
— Por que me mandou os livros, Christian? — pergunto-lhe em tom suave.
Deixa os talheres e me olha fixamente, com uma insondável emoção ardendo em seus olhos. Maldito seja... Ele me seca a boca.
   — Bom, quando o ciclista quase te atropelou... e eu te segurava em meus braços e me olhava me dizendo: "me beije, me beije, Christian"...  Ele encolhe os ombros. — Bom, acreditei que te devia uma desculpa e uma advertência. — passou uma mão pelo cabelo. — Anastásia, eu não sou um homem de flores e corações. Não me interessam as histórias de amor. Meus gostos são muito peculiares. Deveria te manter afastada de mim. — Fecha os olhos, como se negasse a aceitá-lo. — Mas há algo em ti que me impede de me afastar. Suponho que já o tinha imaginado.
De repente, já não sinto fome. Não pode afastar-se de mim!
— Pois não te afaste — eu sussurro. 
Ele ficou boquiaberto e com os olhos nos pratos.
— Não sabe o que diz.
— Pois me explique isso.
Olhamo-nos fixamente. Nenhum dos dois toca na comida.
— Então, sei que sai com mulheres... — digo-lhe.
Seus olhos brilham divertidos.
— Sim, Anastásia, saio com mulheres. — Ele faz uma pausa para que assimile a informação e de novo me ruborizo. Tornou-se a romper o filtro que separa meu cérebro da boca. Não posso acreditar que disse algo assim em voz alta.
— Que planos tem para os próximos dias? — Ele me pergunta em tom suave.
— Hoje trabalho, a partir do meio-dia. Que horas são? — exclamo assustada.
— Pouco mais de dez horas. Tem tempo de sobra. E amanhã?   Colocou os cotovelos sobre a mesa e apoiou o queixo em seus compridos e finos dedos.
— Kate e eu vamos começar a empacotar. Mudamos para Seattle no próximo fim de semana, e eu trabalho no Clayton's toda esta semana.
— Já têm casa em Seattle?
— Sim.
— Onde?
— Não recordo o endereço. No distrito de Pike Market.
— Não é longe de minha casa, — diz sorrindo. — E no que vais trabalhar em Seattle?
Onde quer chegar com todas estas perguntas? O santo inquisidor Christian Grey é quase tão pesado como a Santa inquisidora Katherine Kavanagh.
— Mandei meu curriculum para vários lugares para fazer estágio. Ainda espero resposta.
— E a minha empresa, como te comentei?
Ruborizo-me... Claro que não.
— Bom... não.
— O que tem de ruim com minha empresa?
— Sua empresa ou sua "companhia"? — pergunto-lhe com uma risada maliciosa.
— Está rindo de mim, senhorita Steele?
Inclina a cabeça e acredito que parece divertido, mas é difícil sabê-lo. Ruborizo e desvio meu olhar para meu café da manhã. Não posso olhá-lo nos olhos quando fala nesse tom.
— Eu gostaria de morder esse lábio — sussurra perturbadoramente
Não estou consciente de que estou mordendo meu lábio inferior. Depois de um leve susto, fico boquiaberta. É a coisa mais sexy que me disse. Meu coração pulsa a toda velocidade e acredito que estou ofegando. Meu Deus! Estou tremendo, totalmente perdida e meio doida. Mexo-me na cadeira e procuro seu impenetrável olhar.
— Por que não o faz? — o desafio em voz baixa.
— Porque não vou te tocar, Anastásia... não até que tenha seu consentimento por escrito — diz-me esboçando um ligeiro sorriso.
O quê?
— O que quer dizer?
— Exatamente o que falei. — Sussurra e move a cabeça divertido, mas também impaciente.
— Tenho que lhe mostrar isso Anastásia. A que hora sai do trabalho esta tarde?
— Às oito.
— Bem, poderíamos ir jantar na minha casa em Seattle, esta noite ou no sábado que vem, onde lhe explicaria isso. Você decide.
— Por que não me pode dizer isso agora?
— Porque estou desfrutando o meu café da manhã e de sua companhia. Quando você souber, certamente não quererá voltar a me ver.
— O que significa tudo isto? Trafica com meninos de algum recôndido fundão do mundo para prostituí-los? Faz parte de alguma perigosa gangue mafiosa?
Isso explicaria por que é tão rico. É profundamente religioso? É impotente? Seguro que não... poderia me demonstrar isso agora mesmo.   Incomodo-me pensando em todas as possibilidades. Isto não leva a nenhuma parte. Eu gostaria de resolver o enigma de Christian Grey, o quanto antes. Se isso implicar que seu segredo é tão grave que não vou querer voltar ou ter nada com ele, então, a verdade será um alívio. Não te engane!, grita o meu subconsciente. Terá que ser algo muito mau para que saia correndo.
— Esta noite.
— Esta noite.
Levanta uma sobrancelha.
— Como Eva, quer provar quanto antes o fruto da árvore da ciência.
Solta uma risada maliciosa.
— Está rindo de mim, senhor Grey? — pergunto-lhe em tom suave.
Olha-me apertando os olhos e saca seu BlackBerry. Tecla um número.
— Taylor, vou necessitar do Charlie Tango.
Charlie Tango! Quem é esse?
— Desde Portland. A... digamos às oito e meia... Não, fica na escala... Toda a noite.
Toda a noite!
— Sim. Até amanhã pela manhã. Pilotarei de Portland a Seattle.
Pilotará?
— Piloto disponível ás dez e meia.
Deixa o telefone na mesa. Nem por favor, nem obrigado.
— As pessoas sempre fazem o que lhes manda?
— Eles devem fazê-lo, se não quiserem perder seu trabalho, — ele responde-me inexpressivo.
— E se não trabalharem para ti?
— Bom, posso ser muito convincente, Anastásia. Deveria terminar o café da manhã. Logo a levarei para casa. Passarei para te buscar pelo Clayton's as oito, quando sair. Voaremos à Seattle.
— Voaremos?
— Sim. Tenho um helicóptero.
Olho para ele boquiaberta. Segunda entrevista com o misterioso Christian Grey. De um café a um passeio em helicóptero. Uau.
— Iremos a Seattle de helicóptero?
— Sim.
— Por quê?
Ele sorri perversamente.
— Porque posso.  Termine o café da manhã.
Como vou comer agora? Vou a Seattle de helicóptero com Christian Grey. E quer me morder o lábio... Estremeço só de pensar.
— Coma, — ele diz bruscamente. — Anastásia, não suporto jogar comida fora... Coma.
— Não posso comer tudo isto, — digo olhando o que ficou na mesa.
— Coma o que há em seu prato. Se ontem tivesse comido como devido, não estaria aqui e eu não teria que mostrar minhas cartas tão cedo.
Aperta os lábios. Parece zangado.
Franzo o cenho e miro a comida que há em meu prato, já fria. Estou muito nervosa para comer, Christian. Você não entende? Explica meu subconsciente. Mas sou muito covarde para dizê-lo em voz alta, sobretudo, quando parece tão áspero. Mmm... como um menino pequeno. A ideia me parece divertida.
— O que parece tão engraçado? — pergunta-me.
Como não me atrevo a dizer-lhe, não levanto os olhos do prato. Enquanto eu como a última parte da panqueca, elevo o olhar. Observa-me com olhos escrutinadores.
— Boa garota. Levar-te-ei para casa assim que tenha secado o cabelo. Não quero que fique doente.
Suas palavras têm um pouco de promessa implícita. O que quer dizer? Levanto-me da mesa. Por um segundo me pergunto se deveria lhe pedir permissão, mas descarto a ideia. Parece-me que abriria um precedente perigoso. Dirijo-me a seu quarto, mas uma ideia me detém.
— Onde dormiu?
Viro-me para olhá-lo. Está ainda sentado à mesa de jantar. Não vejo mantas nem lençóis pela sala. Possivelmente já os tenha recolhido.
— Em minha cama, — responde-me, de novo, com olhar impassível.
— OH.
—Sim, para mim também foi uma novidade, — Ele diz sorrindo. —Dormir com uma mulher... sem sexo.
— Sim, "sexo", — digo e ruborizo, é obvio.
—Não, — responde-me movendo a cabeça e franzindo o cenho, como se acabasse de recordar algo desagradável. — Sinceramente, só dormir com uma mulher.
Agarra o jornal e segue lendo.
Que significa isso? Alguma vez dormiu com uma mulher? É virgem? Duvido, de verdade. Fico olhando-o sem acreditar nisso. É a pessoa mais enigmática que já conheci. Dei-me conta de que dormi com Christian Grey. Quanto teria dado para estar consciente e vê-lo dormir? Vê-lo vulnerável. Custa-me imaginá-lo. Bom, supõe-se que o descobrirei esta mesma noite.
 Já no quarto, procuro em uma cômoda e encontro o secador. Seco o cabelo como posso, lhe dando forma com os dedos. Quando terminei, vou ao banheiro. Quero escovar os dentes. Vejo a escova de Christian. Seria como colocar ele na boca. Mmm... Olho rapidamente para a porta do banheiro...  me sentindo culpada. Está úmida. Deve tê-la utilizado. Agarro-a a toda pressa, coloco pasta de dente e me escovo rapidamente. Sinto-me como uma garota má. Resulta muito emocionante.
Recolho a camiseta, o sutiã e a calcinha de ontem, meto-os na bolsa que me trouxe Taylor e volto para a sala de estar a procurar da bolsa e da jaqueta. Para minha grande alegria, tenho um elástico de cabelo na bolsa. Christian me observa com expressão impenetrável enquanto me arrumo. Noto como seus olhos me seguem enquanto me espera que eu termine. Está falando com alguém no seu celular.
— Querem dois...? Quanto vai custar...? Bem, e que medidas de segurança temos ali...? Irã pelo Suez...? Ben Suam é seguro...? E quando a Darfur...? De acordo, adiante. Mantenha-me informado de como vão às coisas.
— Está pronta? — ele pergunta-me.
Confirmo. Pergunto-me sobre o que era a conversa. Pega uma jaqueta azul marinho, agarra as chaves do carro e se dirige à porta.
— Você primeiro, sensenhorita Steele, — murmura me abrindo a porta.
Tem um aspecto elegante, embora informal.
Fico olhando-o por um segundo mais. E pensando que dormi com ele esta noite, e que, fora às tequilas e o vômito, continua aqui. Não só isso, mas além disso quer me levar a Seattle. Por que a mim? Não o entendo. Cruzo a porta recordando suas palavras: "Há algo em ti...". Bom, o sentimento é mútuo, senhor Grey, e quero descobrir qual é seu segredo.
Percorremos o caminho em silencio até o elevador. Enquanto esperamos, levanto um instante à cabeça para ele, que está me olhando. Sorrio e ele franze os lábios.
Chega o elevador e entramos. Estamos sozinhos. De repente, por alguma inexplicável razão, provavelmente por estar tão perto em um lugar tão reduzido, a atmosfera entre nós muda e se carrega de elétrica e excitante antecipação. Acelera-me a respiração e o coração dispara. Ele olha um pouco para mim, com olhos totalmente impenetráveis. Olha-me o lábio.
— Merda a papelada. Encosta-se em mim e me empurra contra a parede do elevador. Antes que me dê conta, me sujeita os dois pulsos com uma mão, levanta-os acima da minha cabeça e me imobiliza contra a parede com os quadris. Minha mãe. Com a outra mão me agarra pelo cabelo, puxa-o para baixo para me levantar o rosto e cola seus lábios aos meus. Quase me faz mal. Gemo o que lhe permite aproveitar a ocasião para colocar a língua e me percorrer a boca com perita perícia. Nunca me beijaram assim. Minha língua acaricia timidamente a sua e se une a uma lenta e erótica dança de sensações, de sacudidas e empurradas. Levanta a mão e me agarra a mandíbula para que não me mova. Estou indefesa, com as mãos unidas acima da cabeça, o rosto preso e seus quadris me imobilizando.
Sinto sua ereção contra meu ventre. Meu deus... Deseja-me. Christian Grey, o deus grego, deseja-me, e eu o desejo, aqui... Agora, no elevador.
— É... tão... doce, — ele murmura entrecortadamente.
O elevador se detém, abre-se a porta, e em um abrir e fechar de olhos me solta e se separa de mim. Três homens trajados de ternos nos olham e entram sorridentes. Pulsa-me o coração a toda pressa. Sinto-me como se tivesse subido correndo por um grande morro. Quero me inclinar e me sujeitar às risadas, mas seria muito óbvio.
Eu o olho. Parece absolutamente tranquilo, como se tivesse estado fazendo palavras cruzadas do Seattle Time. Que injusto. Não o afeta o mínimo a minha presença? Olha-me de esguelha e deixa escapar um ligeiro suspiro. Valeu, afeta-o, e a pequena deusa que levo dentro de mim, sacode os quadris e dança um SAMBA para celebrar a vitória. Os homens de negócios descem no primeiro andar.
— Você escovou os dentes — ele fala me olhando fixamente.
— Usei sua escova.
Seus lábios esboçam um meio sorriso.
— Ai, Anastásia Steele, o que vou fazer contigo?
As portas se abrem no vestíbulo, agarra-me a mão e sai comigo.
— O que terão os elevadores? — ele murmura para si mesmo, cruzando o vestíbulo em grandes pernadas.  Luto por manter seu passo, porque todo meu raciocínio ficou esparramado pelo chão e as paredes do elevador número 3 do hotel Heathman.

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