Parte
III
NO
FOGO
A beleza é a cabeça da Medusa
Que homens armados tentam cortar.
Quanto mais morta, mais mortal a musa
Que morta atormenta sem nunca parar.
–
Arehibald MaeLeish, "Beleza"
INVASÃO
Ao olhar para trás, só encontrou camas vazias. Estava sozinha no dormitório.
Ao olhar para trás, só encontrou camas vazias. Estava sozinha no dormitório.
Ela sacudiu a cabeça, ainda sonolenta e incrédula. Sob seus pés, o
chão tremia, e as paredes balançavam ao redor. Subitamente, o plástico de uma
das janelas se despedaçou, e a barulheira, antes abafada do lado de fora se
espalhou, machucando seus ouvidos. O prédio todo estremeceu, como se estivesse
prestes a desmoronar.
Onde estariam todos? Já teriam fugido da Fumaça e a deixado lá
para enfrentar a invasão sozinha?
Tally correu até a entrada e abriu a porta com um puxão.
Deparou–se com um carro voador pousando. A nuvem de poeira a deixou momentaneamente
cega. Ela associou suas linhas agressivas às do veículo da Circunstâncias
Especiais que a havia levado ao primeiro encontro com a dra. Cable. Aquele,
porém, era equipado com quatro lâminas, onde ficariam as rodas em carros
terrestres. Tratava–se de uma espécie de cruzamento entre um carro voador
normal e o helicóptero dos guardiões.
O veículo poderia andar em qualquer lugar: na cidade ou em áreas
selvagens. Tally lembrou–se das palavras da dra. Cable. Chegaremos em poucas
horas. Tentou tirar o pensamento da cabeça. Afinal, era impossível aquilo
ter algo a ver com ela.
O carro finalmente tocou o chão. Não era hora de ficar parada,
pensando. Ela se virou e saiu em disparada.
A área tinha se transformado numa confusão de fumaça e pessoas
correndo. As fogueiras acesas em buraco haviam sido apagadas e agora as brasas
queimavam por toda parte. Dois dos maiores prédios da vila estavam em chamas.
Galinhas e coelhos tentavam escapar, misturados a pequenos redemoinhos de
poeira e cinzas. Os Enfumaçados corriam às dezenas: alguns tentando apagar os
incêndios, alguns tentando fugir e outros simplesmente em pânico.
No meio de tudo, via–se a movimentação dos perfeitos cruéis. Seus
uniformes cinza passavam de um lado ao outro da confusão como sombras fugazes.
Habilidosos e tranquilos, como se não ligassem para o caos ao seu redor, eles
se dedicavam a deter os desorientados Enfumaçados. Embora não carregassem armas
visíveis, obrigavam todos que atravessavam seu caminho a deitarem no chão,
imobilizados e confusos.
Eles tinham velocidade e força super–humanas. A transformação em
Especial lhes tinha garantido mais do que os rostos ameaçadores.
Perto do refeitório, mais de vinte Enfumaçados tentavam resistir
ameaçando um punhado de Especiais com machados e porretes improvisados. Ao ir
na direção do confronto, Tally sentiu aromas perdidos do café da manhã, em meio
à sufocante nuvem de fumaça. Seu estômago roncou.
Naquele instante, ela se deu conta de que havia perdido a chamada
para o café da manhã, cansada demais para se levantar na mesma hora que os
outros. Os Especiais deviam ter esperado até que a maioria dos Enfumaçados
estivesse reunida no refeitório para iniciar a invasão.
Era óbvio. O objetivo era capturar o máximo de Enfumaçados numa
única ofensiva.
Os Especiais não atacavam o grupo encurralado no refeitório. Com
paciência, esperavam formando um círculo em torno do prédio, enquanto recebiam
reforço de pessoal e de carros que pousavam a cada minuto. Quando alguém
tentava passar pelo cordão de isolamento, eles agiam rapidamente, desarmando e
neutralizando o infeliz. A verdade era que a maior parte dos Enfumaçados estava
muito atônita para resistir – paralisada pela visão dos rostos terríveis dos
oponentes. A maioria nunca tinha visto um perfeito cruel.
Tally se encostou na lateral de um prédio, buscando se esconder
por trás de um monte de lenha. Protegendo os olhos da tempestade de poeira,
tentou encontrar uma rota de fuga. Não havia como chegar à área central da
Fumaça, onde sua prancha descansava no amplo telhado do centro de comércio,
recarregando sob o sol. A única saída era a floresta.
No limite mais próximo da vila, havia um trecho de árvores
preservadas. Seria uma corrida de apenas vinte segundos. No entanto, uma
Especial estava postada entre ela e o início da mata densa, de vigia para
interceptar qualquer Enfumaçado em fuga. Os olhos da mulher varriam toda a área
perto da floresta, movendo a cabeça de um lado ao outro numa estranha cadência,
como uma pessoa desinteressada assistindo a uma partida de tênis.
Tally avançou com cuidado, ainda encostada no prédio. Um carro
passou acima dela, lançando um monte de poeira e farpas de madeira em sua
direção.
Quando reabriu os olhos, Tally se viu acompanhada por um feio mais
velho, que engatinhava ao seu lado.
– Ei! – sussurrou ele.
Ela reconheceu os traços decadentes e o semblante fechado.
Era o Chefe.
– Estamos com um problema, minha jovem.
Sua voz ríspida se impunha até em meio à confusão de sons. Tally
olhou na direção da Especial que montava guarda.
– É, eu sei.
Nesse momento, outro carro passou sobre eles. Rapidamente, o Chefe
puxou Tally, até acharem abrigo atrás de um tambor que servia para armazenar a
água da chuva.
– Então, você também a viu? – disse ele, revelando a ausência de
um dente na boca. – Talvez, se sairmos os dois correndo, um de nós consiga
escapar. Se o outro resistir.
– Acho que sim – concordou, embora tivesse sentido um arrepio ao
pensar naquilo. Ela deu outra olhada na Especial, que permanecia parada,
tranquila como uma coroa à espera do barco de passeio. – Mas eles são muito
rápidos.
– Não necessariamente – ele tirou uma sacola dos ombros –, há duas
coisas que guardo para emergências.
O Chefe abriu uma sacola e puxou de dentro um pote plástico do
tamanho de um sanduíche.
– Esta é uma delas.
Ele soltou um canto da tampa, e uma nuvenzinha de fumaça subiu.
Num segundo, uma onda de ardência tomou conta da cabeça de Tally. Ela cobriu o
rosto, sentindo os olhos lacrimejarem, e tossiu na tentativa de se livrar da
sensação que havia tomado conta de sua garganta.
– Nada mal, hein? – disse o Chefe, rindo. – Isso é pimenta habanero seca
e pulverizada. Fica boa com feijão, mas é um inferno para os olhos.
– Você é maluco? – perguntou Tally, piscando os olhos para secar
as lagrimas.
– A segunda coisa é esta sacola, que contém uma amostra
representativa de duzentos anos de cultura visual da época dos Enferrujados.
Artefatos de valor inestimável. Insubstituíveis. Qual dos dois você quer?
– Como é que é?
– Você quer a pimenta habanero ou a sacola de
revistas? Quer ser pega depois de se engalfinhar com nossa amiga Especial ou
salvar desses bárbaros uma preciosa parte da cultura humana?
Tally tossiu de novo.
– Acho que... quero escapar.
– Ótimo – disse o Chefe, sorrindo. – Estou cansado de fugir.
Cansado de perder cabelo e de ser míope, também. Já fiz minha parte. E, além do
mais, você parece ser bem rápida.
Ele lhe entregou a sacola. Estava pesada, mas Tally se sentia mais
forte desde sua chegada à Fumaça. Revistas nem se comparavam às cargas de
metal.
Tally se lembrou de quando folheara uma revista pela primeira vez,
na biblioteca, e conhecido horrorizada, a aparência das pessoas no passado.
Naquele primeiro dia na Fumaça, as fotografias a haviam deixado enjoada, mas
agora lá estava ela pronta para salvá–las.
– Este é o plano – disse o Chefe – Eu vou na frente. Quando a
Especial me agarrar, jogarei um monte de pimenta na cara dela. Entao você sai
correndo, o mais rápido que puder, sem olhar para trás. Entendeu?
– Entendi.
– Com um pouco de sorte, talvez nós dois consigamos fugir. Se bem
que uma plástica até cairia bem em mim. Está pronta?
– Vamos – disse Tally, prendendo bem a alça da sacola no ombro.
– Um... dois... – A contagem parou. – Ah, não. Creio que temos um
problema, minha jovem.
– Qual?
– Você está sem sapatos.
Tally olhou para baixo. Na confusão, tinha saído descalça do
dormitório. A terra batida da Fumaça não seria problema, mas assim que chegasse
à floresta...
– Não vai aguentar nem dez metros, garota. – O Chefe tomou a
sacola de suas mãos e lhe entregou o pote plástico.
– Agora, vamos.
– Mas eu... Não quero voltar para a cidade.
– Claro, minha jovem, e eu adoraria receber um tratamento
dentário. Porém, todos nós temos de fazer sacrifícios. E a hora é agora!
Assim que pronunciou a última palavra, o Chefe empurrou Tally para
longe da proteção do tambor. Ela tropeçou para a frente e se viu totalmente
exposta. Ao ouvir o barulho de um carro passando bem acima de sua cabeça, Tally
instintivamente se agachou e começou a correr na direção da floresta.
A Especial virou a cabeça, cruzou os braços calmamente e franziu a
testa, como se fosse uma professora que tivesse acabado de ver algumas crianças
brincando onde não deviam. Tally se perguntou se a pimenta teria efeito na
mulher. Se causasse a mesma reação que nela própria, talvez conseguisse
alcançar a floresta, ainda que sua função fosse apenas a de ser isca. Ainda que
ela estivesse descalça.
Ainda que David já tivesse sido capturado e ela nunca mais fosse
vê–lo...
Pensar naquela possibilidade liberou uma súbita torrente de raiva
dentro de Tally. Segurando o pote com as duas mãos, ela disparou para cima da
mulher.
Um sorriso surgiu entre os traços agressivos do rosto da Especial.
Uma fração de segundo antes da colisão entre as duas, a Especial
desapareceu, como uma moeda na mão de um mágico. Em seguida, Tally sentiu uma
pancada na canela, e uma dor se espalhou por sua perna. Com o corpo caindo para
a frente, ela esticou os braços, tentando impedir o impacto e deixando o pote
escapar.
Tally caiu com tudo, e suas mãos deslizaram na terra. Rolando pelo
chão, ela olhou para trás e viu a Especial agachada. A mulher havia apenas se
esquivado, com incrível velocidade, a Tally tinha tropeçado nela, como se fosse
uma criança.
Sacudindo a cabeça e cuspindo a terra de sua boca, Tally localizou
o pote, um pouco à frente. Tentou alcançá–lo, afoitamente, mas logo um peso
irresistível abateu–se sobre seu corpo e a lançou de cara no chão. Em seguida,
ela sentiu os pulsos sendo puxados para trás e amarrados, com algemas de
plástico que cortavam sua pele.
Por mais que se debatesse, não conseguia se mexer.
Assim que Tally deixou de sentir o peso, uma bota empurrou seu
corpo e a virou. A Especial estava de pé ao lado dela, com um sorriso frio,
segurando o pote.
– Muito bem, muito bem, feia. Agora se acalme. Não queremos lhe
fazer mal. Mas faremos se for necessário.
Tally começou a falar, mas uma dor intensa a impediu de continuar.
Na queda, seu queixo tinha batido no chão.
– O que há de tão importante aqui dentro? – perguntou a Especial,
sacudindo o pote e tentando enxergar através do plástico translúcido.
De rabo de olho, Tally viu o Chefe se dirigindo à floresta numa
corrida lenta e sofrida. A sacola devia estar pesada demais para ele.
– Abra e veja – sugeriu Tally, mergulhada em dor.
– Farei isso – disse a Especial, ainda sorrindo, antes tenho de
cuidar de outra coisa.
Ela se voltou para o Chefe, assumindo uma postura meio animalesca,
agachada e encolhida, como um felino pronto para dar o bote.
Imediatamente, Tally rolou para ficar novamente de costas e passou
a dar golpes com os pés no ar. Um dos chutes acertou o pote, que se abriu,
lançando uma nuvem de pó avermelhado na Especial.
Por um instante, uma expressão de surpresa tomou conta do rosto da
mulher. Em meio a gemidos, seu corpo se agitava convulsivamente. Em seguida,
ela fechou os olhos e as mãos e finalmente gritou.
O som, totalmente desumano, chegou aos ouvidos de Tally como o
ruído da motosserra atingindo um pedaço de metal. Ela acionou todos os músculos
do corpo para tentar se livrar das algemas, embora seus instintos só lhe
pedissem que tapasse os ouvidos. Graças a outro movimento brusco, Tally
conseguiu ficar de pé e cambaleou em direção à floresta.
Com a pimenta em pó se dispersando ao vento, ela passou a sentir
uma pequena irritação na garganta. Corria e tossia. Os olhos lacrimejavam e
ardiam, deixando–a quase cega. De mãos atadas e sem equilíbrio, Tally se enfiou
na mata. Logo tropeçou em alguma coisa e caiu.
Ela se arrastou na esperança de chegar longe o bastante para que
ninguém a visse.
Piscando os olhos sem parar, percebeu que o grito animalesco da
Especial tinha sido um tipo de alarme. Mais três perfeitos cruéis haviam
aparecido. Um carregou a mulher para fora dali em seus braços, enquanto os
outros se aproximaram da floresta.
Na mesma hora, Tally parou de se mexer, torcendo que houvesse mata
suficiente para mantê–la escondida.
Um segundo depois, sentiu uma coceira na garganta, uma irritação
que não parava de crescer. Prendeu a respiração e fechou os olhos. Seu peito,
no entanto, tremia, e o corpo todo se agitava, traduzindo a urgência de
expulsar os restos de pimenta dos pulmões.
Ela precisava tossir.
Tally engolia repetidas vezes, como se a saliva pudesse apagar o
incêndio em sua garganta. Embora seus pulmões pedissem oxigênio, ela não tinha
coragem de inspirar. Um dos Especiais estava a uma distância mínima, examinando
a floresta com movimentos lentos, de um lado para o outro, e os olhos
percorrendo a mata densa cuidadosamente.
Aos poucos, a ardência pareceu se dissipar, e a vontade de tossir
se aplacou silenciosamente dentro do corpo de Tally. Mais tranquila, ela
finalmente se permitiu respirar.
No entanto, mesmo com o barulho dos carros, a crepitação dos
prédios em chamas e os ruídos de luta, o Especial, de alguma forma, ouviu o ar
saindo de sua boca. Atento, ele virou a cabeça, estreitou os olhos e, num único
movimento, apareceu ao seu lado e pôs a mão em sua nuca.
– Você dá muito trabalho – disse.
Ela tentou responder, mas só conseguiu tossir descontroladamente,
então ele empurrou seu rosto na terra antes que ela pudesse recuperar o fôlego.
Nenhum comentário:
Postar um comentário