quinta-feira, 29 de novembro de 2012

Capítulo 18 (Serie Feios)


ESPAGBOL

Ela viajou bastante naquela noite.
Os trilhos avançavam abaixo dela, contornando suavemente as montanhas e atravessando rios por cima de pontes em pedaços, sempre na direção do mar. Por duas vezes, Tally foi conduzida por dentro de outras ruínas dos Enferrujados, cidades menores que também haviam desmoronado. Permaneciam apenas algumas formas retorci das de metal que subiam por entre as árvores como dedos sem carne tentando agarrar o ar. Havia latarias queimadas em toda parte, lotando as vias que saíam da cidade; carros amassados nas colisões que tinham marcado o desespero final dos Enferrujados.
Ao se aproximar do centro de uma das cidades em ruínas, ela entendeu o propósito daquela montanha–russa longa e plana. Numa confluência de trilhos, interconectados como num imenso circuito impresso, havia alguns carrinhos de trem, grandes contêineres cheios de coisas dos Enferrujados – pilhas irreconhecíveis de plástico e metal. Tally lembrou que as cidades de ferrugem não eram autossuficientes. Estavam sempre comprando e vendendo umas das outras. Isso quando não brigavam para definir quem possuía a maior quantidade de bens. As cidades deviam usar a maior montanha–russa plana para levar os produtos de um lugar ao outro.
Quando os primeiros raios de sol surgiam no céu, Tally começou a ouvir o barulho do mar distante, um murmúrio, vindo de além do horizonte. Sentia a salinidade no ar, o que despertava lembranças dos passeios de infância pelo oceano, com Ellie e Sol.
“O mar é gelado, procure o freio”, dizia o bilhete de Shay. Logo, Tally conseguiria ver as ondas quebrando no litoral. Talvez estivesse perto de entender mais aquela pista.
Ela se perguntava quanto tempo ganhara graças à nova prancha. Decidiu acelerar. Para se proteger do frio da madrugada, fechou bem o casaco do alojamento. A pista subia gradualmente, superando as formações de rocha calcária. Uma imagem de penhascos à beira do oceano, repletos de pássaros marinhos que faziam ninho nas cavernas altas, veio à mente de Tally.
Tinha a impressão de que as viagens de acampamento com Sol e Ellie aconteceram séculos antes. Imaginou se não existiria uma operação que pudesse transformá–la novamente em criança. Para sempre.
De repente, diante de Tally apareceu uma fenda, atravessada por uma ponte semidestruÍda. Num instante, ela percebeu que a ponte não chegava ao outro lado. E não havia um rio cheio de depósitos de metal lá embaixo para mantê–la no ar. Só uma enorme queda até a água.
Tally virou a prancha, derrapando, e sentiu os joelhos se dobrando com a força da freada. Os tênis aderentes deslizaram, soltando um chiado, e seu corpo ficou quase paralelo ao chão.
Mas, na verdade, não havia chão.
Havia um abismo lá embaixo, uma fissura aberta no penhasco à beira–mar. Ondas invadiam o canal estreito. A espuma parecia brilhar no escuro, e os rugidos ferozes alcançavam os ouvidos de Tally. As luzes do detector de metal foram se apagando, uma a uma, depois que ela passou pela extremidade destruída da ponte de metal.
Tally sentiu a prancha perder sustentação e começar a cair.
Uma possibilidade passou por sua cabeça: se pulasse naquela hora, poderia se agarrar ao fim da ponte partida. Nesse caso, porém, a prancha cairia no precipício e ela ficaria presa ali.
Finalmente, a prancha parou em pleno ar. Mas Tally continuava caindo. Agora os últimos pedaços da ponte encontravam–se acima dela, fora de alcance. A prancha caía lentamente, com as luzes se apagando à medida que os ímãs perdiam apoio. Tally era muito pesada. Ela tirou a mochila dos ombros decidida a soltá–Ia no ar. Mas como sobreviveria sem o kit? A única opção seria retomar à cidade para buscar mantimentos, o que significaria perder mais dois dias. Nesse momento, um vento gelado vindo do oceano subiu pelo abismo, deixando seus braços arrepiados. Era o sopro da morte.
O vento acabou segurando a prancha no ar. Por um instante, Tally ficou suspensa, sem subir, nem cair. Logo em seguida, porém, a prancha reiniciou a descida...
Tally enfiou as mãos nos bolsos do casaco e abriu os braços, criando uma espécie de vela, para capturar o vento. Veio uma rajada mais forte, e ela subiu um pouco, tirando parte do peso da prancha. Uma das luzes se acendeu.
Como um pássaro, de asas bem abertas, ela começou a subir.
Gradualmente, os sustentadores recuperaram o apoio nos trilhos, até a prancha voltar ao nível da ponte. Com cuidado, Tally conduziu O equipamento até o penhasco. Ela tremia quando a prancha chegou novamente à terra firme. Desceu com as pernas bambas.
– O mar é gelado, procure o freio – disse com raiva.
Como podia ter sido tão burra, acelerando enquanto o bilhete de Shay dizia para tomar cuidado?
Tally deitou–se no chão. Sentia–se subitamente atordoada e cansada. Mentalmente reviu as cenas do abismo se abrindo, as ondas indiferentes se chocando contra as rochas recortadas. Ela poderia estar ali, sendo atirada seguidamente, até não haver mais nada.
Lembrou–se de que aquilo era a natureza selvagem. Os erros, ali, tinham sérias consequências.


Antes mesmo de o coração se acalmar, o estômago de Tally começou a roncar.
Ela abriu a mochila e procurou o purificador de água, que tinha sido enchido no último rio. Esvaziou o filtro. Um punhado de barro pulou no chão.
– Eca – disse, dando uma espiada pelo buraco.
Parecia limpa e tinha cheiro de água. Tomou um gole providencial, mas guardou a maior parte para preparar o jantar, o café da manhã ou o que fosse. Tally planejava viajar o máximo de tempo à noite, deixando a prancha recarregar de dia, para não perder tempo.
Revirando o saco à prova d'água, pegou um pacote de comida. A embalagem dizia “EspagBol”. Não sabia do que se tratava. Ela abriu o pacote e puxou o que parecia ser um fio enorme enrolado. Jogou–o no purificador e esperou até que a água borbulhando indicasse a fervura.
Ao voltar sua atenção para o horizonte reluzente, ficou maravilhada. Nunca tinha visto o amanhecer de fora da cidade. Como a maioria dos feios, não costumava acordar cedo. E, de qualquer modo, o horizonte sempre estava escondido atrás da paisagem de Nova Perfeição. A visão de uma alvorada de verdade era impressionante.
Uma faixa de tons de laranja e amarelo incendiava o céu, magnífica e surpreendente, espetacular como fogos de artifício, só que mudando num ritmo imponente, quase imperceptível. Estava percebendo como eram as coisas na natureza. Perigosas ou lindas. Ou ambas as coisas.
O purificador emitiu um sinal. Tally abriu a tampa e deu uma olhada. Era macarrão com molho vermelho e pequenos pedaços de carne de soja. Pelo cheiro, parecia delicioso. Ela leu a embalagem novamente.
– EspagBol... Espaguete à bolonhesa!
Depois de achar um garfo na mochila, Tally comeu vorazmente. Com o sol nascente a aquecendo e o mar batendo lá embaixo, era a melhor refeição que fazia em muito em muito tempo.


Como ainda havia um pouco de carga na prancha, Tally decidiu seguir caminho depois do café da manhã. Antes, releu as primeiras linhas do bilhete de Shay:

Pegue a montanha para além da abertura,
até achar a longa e plana que procura.
O mar é gelado, procure o freio.
Na segunda, cometa um erro feio.

Caso “na segunda” significasse uma segunda ponte quebrada, Tally preferia encontrá–la de dia. Se tivesse visto o abismo um instante mais tarde, teria virado EspagBol na base dos penhascos.
Seu primeiro problema, porém, era passar pelo precipício. Era muito maior que o buraco no trilho da montanha–russa certamente grande demais para ser pulado. Aparentemente, a única saída era ir andando por outro caminho. Então, ela foi pelo mato; suas pernas até agradeceram pelo alongamento depois de uma longa noite em cima da prancha. Em pouco tempo, o vão tinha acabado e ela pôde voltar ao caminho, já do outro lado.
Tally passou a voar numa velocidade bem menor, mantendo os olhos fixos à sua frente, dando apenas espiadas ocasionais à paisagem ao seu redor.
Do lado direito, montanhas se erguiam, altas o bastante para ter neve nos cumes, mesmo no início do outono. Tally sempre considerara a cidade enorme, um verdadeiro mundo, mas tudo naquele lugar seguia uma escala muito maior. E era tão belo. Conseguia entender por que as pessoas tinham vivido na natureza, sem torres de festa ou mansões. Ou dormitórios. A lembrança de casa também fez Tally pensar como seus músculos doloridos gostariam de um banho quente. Imaginou uma banheira gigante, como as que existiam em Nova Perfeição, com jatos d'água e um pacote de espuma massageadora. Se uma provável banheira aparecesse em seu caminho, seria o purificador capaz de ferver água suficiente para enchê–la? Como eles tomavam banho na Fumaça? Tally se perguntava como estaria cheirando depois de mais alguns dias sem um banho. Havia sabonete no kit de sobrevivência? Xampu? Já sabia que não havia toalhas. Nunca tinha se dado conta da quantidade de coisas de que precisava.
A segunda interrupção dos trilhos apareceu depois de mais uma hora de viagem: uma ponte em ruínas sobre um rio que descia das montanhas.
Tally fez uma parada controlada e olhou da beirada. A queda não era tão acentuada quanto no primeiro abismo, mas a altura bastava para matar. E tampouco havia como pular para o outro lado. Dar a volta andando levaria uma eternidade. A garganta prosseguia sem indicar qualquer caminho próximo.
– Na segunda, cometa um erro feio – murmurou.
Que dica. Qualquer coisa que fizesse, naquela situação seria um erro. Seu cérebro estava cansado demais para pensar, e a prancha, quase sem bateria.
A manhã já estava na metade. Era hora de dormir.
Antes, contudo, Tally tinha de abrir a prancha. Segundo o Especial responsável por lhe passar as instruções, era necessário aumentar a superfície de exposição ao sol para a recarga. Assim, ela soltou as travas, e a prancha se desmontou. Abriu como um livro em suas mãos, tornando–se duas pranchas; depois cada uma destas também se abriu, como uma sequência de bonecas de papel. Finalmente, Tally se viu diante de oito pranchas conectadas, medindo duas vezes sua altura, porém mais finas que uma folha grossa de papel. A coisa inteira tremulava ao vento intenso do oceano, como uma pipa gigante, mas os ímãs a impediam de sair voando.
A prancha ficou aberta sob o sol, com sua superfície metálica tornando–se negra à medida que absorvia a luz. Em poucas horas, estaria recarregada e pronta para voar de novo. Tally só esperava que a remontagem também fácil.
Ela pegou o saco de dormir, retirou–o do pacote e se enfiou lá dentro, sem despir qualquer peça de roupa. “Pijamas”, acrescentou mentalmente à lista de coisas da cidade de que sentia falta.
Usou o casaco como travesseiro e cobriu a cabeça com a blusa, que tirou depois de muita dificuldade. Sentindo os primeiros raios de sol no rosto, percebeu que havia se esquecido de aplicar um adesivo de protetor solar depois do nascer do sol. Ótimo. Uma pele queimada e descascando cairia muito bem com seus arranhões em seu rosto de feia.
Ela não conseguiu pegar no sono. Estava esquentando, e era estranho dormir ali, exposta. Os gritos dos pássaros ecoavam em sua cabeça. Conformada, Tally se levantou. Talvez se comesse mais alguma coisa...
Foi tirando os pacotes um por um. As embalagens diziam:

Espagbol
Espagbol
Espagbol
Espagbol
Espagbol...

Tally contou 41 pacotes, o suficiente para três refeições de Espagbol por dia, durante duas semanas. Ela deixou o corpo cair e fechou os olhos, tomada por um cansaço repentino.

– Obrigada, dra. Cable – disse.
Em poucos minutos, estava dormindo.

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