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Por toda minha vida
no colégio, eu tinha uma teoria de que você não pode ir
a uma festa a menos que tenha uma razão para estar lá.
Eu nunca tinha ido a
uma festa de verdade. Só estive em festas de 15 anos,
em que a mãe de alguém
faz o filho convidar todos os colegas da sala, até
aqueles que não falam inglês.
Mas acho que nas festas de verdade, nas festas pra
valer, você precisa de uma
razão para estar lá. O Luke, por exemplo, está no time
de futebol. Isso
significa que ele é convidado para uma série de
comemorações de vitórias,
especialmente porque costuma ser o motivo da vitória.
Além disso, ele é muito
forte. Assim, é útil para levantar barris e arrombar
janelas para fugir da polícia
e coisas do tipo. Também, quando o Luke vai a uma
festa, as meninas também
vão.
Outros caras
têm razões diferentes. Muitas vezes, o maior idiota da turma
tem a casa mais incrível e os pais mais
maravilhosamente ausentes, então é ele
quem dá as festas. Essa é uma razão e tanto para estar
numa festa — quando
ela acontece na sua casa. Depois, tem o garoto que tem
um irmão mais velho
ou um tio esquisito que compra a cerveja — ele é o fornecedor.
Também tem
o cara com um monte de músicas legais baixadas
ilegalmente no iPod — é o
DJ. Se tiver um garoto meio pirado, ou que é reserva do
time de basquete, ou
que está um pouco acima do peso, ou que usa mocassim
sem meias, há uma
qualidade que pode valorizá-lo diante dos outros caras
e das meninas gostosas:
―Mas ele é, tipo, tão engraçado‖.
E as
meninas? Não. Meninas não precisam de motivo para estar numa
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festa. Elas são o motivo da festa.
Na semana seguinte
ao Halloween, o Luke convidou a Kate e a mim para
uma festa do pessoal do time de futebol em New
Rochelle, que ficava no meio
do caminho entre Pelham e a cidade da Kate, Larchmont.
Todas as outras
vezes em que o Luke tinha me convidado para uma festa,
eu havia recusado.
Mas agora tudo era diferente. Agora, além de ser irmão
do astro bonzão do
time, eu tinha uma razão para ir. Eu ia levar uma
garota.
A casa onde
estava rolando a festa era enorme, à beira-mar, com uma
varanda gigante e um quintal enorme. Era a casa de um
jogador do time do
Luke. Meu irmão já tinha ido lá antes e nos mostrou o
lugar. A festa já havia
começado quando chegamos, ou seja, a maioria das
pessoas já estava bêbada.
Umas meninas tentavam dançar na sala de estar, apesar
de não conseguirem
ouvir a música por causa das próprias risadas. A mais
alta tentou dançar break
numa música do John Mayer. Quando tentou plantar
bananeira e não
conseguiu, acabou derramando Smirnoff Ice no sutiã. Aí
ela começou a
chorar, e as outras meninas a cercaram, numa espécie de
amontoado emotivo.
O DJ do iPod
tinha cara de nerd. Ele usava aqueles óculos de armação
preta grossa, que nem eram descolados no estilo do
Rivers Cuomo. Ponto
para mim, pensei, sou mais descolado do que uma pessoa
nesta festa. Mas,
mesmo tendo um jeito molenga, ele se saiu bem quando
uma menina
começou a dar uma lição de moral nele, apontando o dedo
para o cara
enquanto derramava tudo que estava no copo.
— Você não
pode tocar as músicas do Chris Brown — ela disse. —
Estou falando sério. Tipo, como mulher.
— Sinto
muito — ele balançou a cabeça. — ―Forever‖ é boa demais para
deixar passar. — ―Forever‖ era a música que estava bombando quando a coisa
toda aconteceu! — a menina estava indignada. — É, tipo,
a pior que você
poderia escolher.
— É, mas eu
inventei uma dança para essa música — ele respondeu,
então se levantou, girou, deslizou e parou. Ele até que
dançava muito bem.
Mesmo assim, eu ainda era mais descolado que ele.
Na varanda
de trás, caras de jaqueta preta acolchoada fumavam e agiam
de forma suspeita. Na garagem, que ficava no porão,
caras do penúltimo e do
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último ano jogavam pingue-pongue de cerveja. Eu já tinha
ouvido uns
veteranos no St. Luke falarem sobre pingue-pongue de
cerveja, e tinha certeza
de que o Luke já tinha jogado uma ou duas vezes, mas eu
não entendia aquele
jogo. Como beber cerveja e jogar pingue-pongue ao mesmo
tempo? Eu pensei
que era assim que se jogava, segurando uma garrafa de
cerveja na mão
esquerda e a raquete na direita.
Mas a
cerveja ficava em copos de plástico vermelhos, não em garrafas, e
os copos ficavam agrupados em triângulos em cima da
mesa de pingue-
pongue. Não havia raquete, apenas as bolas — e os caras
simplesmente
usavam as mãos para jogá-las nos copos de cerveja. Só
havia homens. Parecia
que era uma zona do tipo ―proibido garotas‖. Afastadas cautelosamente mais
de meio metro da mesa de madeira lascada carregada de
testosterona, elas
ficavam em grupos de duas ou três, com suas saias
jeans, mordendo as bordas
dos próprios copos vermelhos. De alguma forma, mesmo
sem participar, elas
sabiam muito sobre as regras do jogo. Mas quantas
regras poderia haver para
se atirar uma bola num copo?
— Seu
cotovelo estava um milímetro além da borda da mesa! Esse
arremesso não valeu.
— O
parceiro dele não disse que estava ―se aquecendo‖ depois de acertar
o segundo arremesso e antes de começar a vez do
adversário. Ele não vai ter
outra chance até acertar três arremessos consecutivos.
Aparentemente, havia mais regras do que eu pensava!
— Você sabe
jogar pingue-pongue de cerveja? — perguntei à Kate
enquanto assistíamos ao jogo e segurávamos nossos copos
de plástico
vermelhos — com refrigerante. O Luke tinha servido
nossa bebida não
alcoólica na cozinha enquanto pegava uma cerveja.
Kate
balançou a cabeça.
Rapidamente
resolvi que, quando chegasse em casa aquela noite,
aprenderia a jogar pingue-pongue de cerveja. Depois que
virasse um mestre,
conseguiria derrotar os veteranos, e a Kate ficaria
impressionada. E como eu
ia ficar bom naquilo? O Luke praticaria os arremessos
comigo. Eu encontraria
uma tábua para servir de mesa, ou poderíamos sacrificar
a escrivaninha do
Luke, que nunca era usada mesmo, para praticar.
Encheríamos copos de água.
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Calculei que teríamos cerca de duas semanas de treino
antes que minha mãe
descobrisse os copos em formação triangular e pensasse
que tínhamos entrado
para uma seita satânica. Sim, estaríamos treinando para
um jogo que envolve
beber cerveja, e éramos menores de idade, mas eu sabia
que, na cabeça da
minha mãe, a primeira coisa que surgiria seria um culto
satânico.
Claro que eu
nunca tinha bebido cerveja na vida. Talvez fosse melhor
aprender a beber antes de aprender a jogar.
Ou talvez,
se você bebesse muita cerveja, não conseguisse jogar: nenhum
daqueles caras estava conseguindo acertar as bolas de
pingue-pongue nos
copos de cerveja. Assim, era um jogo muito chato de
assistir. A única coisa
divertida era ver as meninas tentarem correr e pegar as
bolas perdidas pelos
cantos cheios de teia de aranha da garagem sem se
abaixarem demais com
aquelas saias curtas.
— Aquele
copo de água é usado para limpar a bola? — Kate perguntou,
olhando para um copo vermelho na borda da mesa cheio de
água com um
tufo de cabelo sujo flutuando na superfície. — Acho que
não está dando
certo.
—
Provavelmente vamos pegar gripe suína apenas por assistir ao jogo —
eu disse. — Vamos ver se o DJ do iPod ainda está
tocando Chris Brown?
— Acho
melhor irmos até a cozinha ver seu irmão plantar bananeira em
cima do barril de chope — ela respondeu. — Ele ainda
vai fazer aquilo virar
um esporte olímpico.
Kate começou
a subir a escada do porão, e eu a segui com a mão em suas
costas, possessivo mas descolado, quando bum! A porta
se abriu com tudo à
nossa frente e atingiu uma viga na parede da garagem.
Um garoto bêbado que
não conseguia enxergar um palmo na frente do nariz
entrou tropeçando. Kate
e eu recuamos, porque ele desceu tropeçando pelos três
degraus. Então parou,
se virou para nós e começou a balançar para frente e
para trás, se apoiando
nos calcanhares e depois nos dedos dos pés, nos
calcanhares e nos dedos...
O Cadeira de
Balanço apontou para a Kate, com um dedo que tentava
escapar da própria embriaguez.
— Ei — ele
disse, com as pálpebras caídas sobre os olhos. — Eu
conheço você.
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Ela ficou
parada, como se esperasse não ser notada. Achando que aquele
garoto nem sequer sabia para quem estava apontando (ou
onde estava),
comecei a subir as escadas novamente. Dei o primeiro
passo, mas...
— Katie —
ele disse em voz alta, mais alta que o barulho do pingue-
pongue de cerveja e que os gritos entusiasmados das
meninas. — Katie
Gallatin.
— Kate? —
falei. Como é que esse cara bizarro conhece a Kate? Uma
sensação defensiva, masculina, encheu meu peito.
Sentimento de posse. Como
Bill Compton, de True Blood, sempre rosnava com seu
mais feroz sotaque
sulista, a Kate era minha. Por que esse idiota estava
falando com a minha
Kate?
Inclinando-se para trás, o Cadeira de Balanço deu um riso abafado e
disse:
— Eu quase
não te reconheci assim, toda vestida.
Eu nunca
havia visto a Kate insegura antes. Agora ela parecia afobada, até
mesmo nervosa. Ela levantou a mão para arrumar o cabelo
e os óculos e ficou
olhando para o chão.
O Cadeira de
Balanço começou a falar mais alto.
— Ei, eu
estudava com essa menina em Larchmont — disse, apontando
para a Kate. — Ela era a maior vagabunda. Katie
Gallatin era a maior...
— Ei! — eu
me coloquei na frente da Kate, toda encolhida e insegura.
Quase tropecei no primeiro degrau. Eu era um homem
forte e grande. Estava
protegendo a garota que eu amava — ou a garota de quem
eu gostava pra
caramba. Eu era o Edward Cullen desafiando o lobisomem.
O Cadeira de
Balanço simplesmente deu um passo para o lado e
continuou falando com a Kate.
— Vai pegar
outra bebida, Katie — ele disse. — Assim você desmaia e
faz a polícia aparecer nesta festa.
— Ei! —
falei mais alto. Talvez meu primeiro ―ei‖ não tivesse sido alto o
suficiente.
A sensação
nervosa e agitada que percorria meu corpo não era
exatamente como aquele impulso poderoso que senti com o
Chris Perez. Lá
eu estava sozinho, sem ninguém, exceto o Chris Cho,
para me ver fazer papel
de idiota. Aqui eu estava cercado por caras descolados
do último ano de outra
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escola.
Mas eu tinha
de defender a Kate. Eu não precisava bater no cara, apenas
mantê-lo afastado da minha namorada. Quer dizer, da
menina que eu não
sabia se era minha namorada. E que me beijou no
corredor, mas que podia ou
não estar romanticamente interessada em mim. Mas
provavelmente estava.
Assim,
quando o Cadeira de Balanço foi um pouco mais para frente,
estendi a mão na direção dele. Ele mal percebeu meu
movimento. Na verdade,
o garoto estava viajando. Parecia um personagem de
filme da Sessão da Tarde
que tem o cérebro transformado em ovo mexido por ter
aceitado um baseado
de um malandro através da cerca de arame. Suas
pálpebras estavam cada vez
mais caídas. Ele estava prestes a desmaiar...
E me deu um
soco no nariz. Pego totalmente desprevenido, fui
derrubado no primeiro degrau. Caí com os joelhos e as
mãos no piso do
porão.
— Vai se
ferrar, Swanstein! — alguém gritou. — Você deu um soco no
garoto, seu otário!
— Você é um
cretino, Swanstein! — outra pessoa disse. Ouvi a bola do
pingue-pongue de cerveja quicar ao longe, abandonada, e
também o barulho
de saltos batendo no chão empoeirado. Ouvi duas meninas
diferentes
perguntarem se eu estava bem. Nenhuma delas era a Kate.
Eu ouvia as
coisas que estavam acontecendo, mas não conseguia ver.
Tudo ficou escuro e confuso durante aqueles dois
segundos depois do soco.
Então o impacto da dor atingiu meu rosto como a lâmina
de uma espada, do
nariz até o fundo do crânio. A espada de dor parecia
fincada no meu rosto,
onde se estabeleceu e começou a pulsar. Meu. Deus. Na
minha cabeça, essas
palavras se repetiam no ritmo da dor latejante. Meu.
Deus. Maldito
maconheiro! Jurei que, assim que conseguisse levantar,
faria com ele o que fiz
com o Chris Perez e muito mais. Eu iria direto para o
estoque de sangue e
nada me faria parar. Eu iria...
Minha fúria
me forçou a abrir os olhos. Naquele momento pensei que me
transformaria no Hulk. Sério, rasgaria as costuras da minha
camisa polo e faria
aquele...
Ai, não. Ai,
meu Deus. Sangue. Quando ergui o abdome e olhei para
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baixo, vi sangue na minha camisa, nos meus braços e
mãos, como se alguém
tivesse jogado um balde de tinta em mim. Havia coágulos
escuros,
redemoinhos de sangue quase preto grudados nos meus
cotovelos dobrados
enquanto eu tirava as mãos do chão e examinava meu
corpo. Meu Deus. E eu
sentia o nariz molhado e frio — o que significava que o
sangue ainda estava
jorrando. Levei as mãos ao rosto e o sangue escorreu
pelos meus dedos. Era
um vulcão em erupção, irrompendo sem parar.
Mandei um
recado de ânimo para o meu estômago: fique calmo, cara.
Aguente firme. Não há necessidade de vomitar aqui na
frente de todo mundo.
É sério, está tudo bem. Fechei os olhos até sentir que
podia levantar, tentando
ignorar como eu estava úmido, pegajoso e sujo.
Quando
levantei, a Kate havia desaparecido.
Olhei em
volta, confuso, prestando atenção nas meninas, que
cochichavam, e nos veteranos, que balançavam a cabeça,
mas não reconheci o
rosto de ninguém. Notei vagamente que alguém tinha
chamado o Luke e ouvi
quando ele desceu as escadas empoeiradas. Ele não
estava vindo na minha
direção, mas atrás do Cadeira de Balanço,
inexplicavelmente curvado sobre a
parte mais próxima da mesa do pingue-pongue de cerveja.
O que tinha de
errado com ele? Ninguém tinha dado um soco nele!
— Que porra
é essa, Swanstein? — meu irmão disse. — Estou falando
com você.
Luke olhava
para ele friamente, e Swanstein virou o rosto para encarar
meu irmão. E saca só: ele estava chorando.
Mas Luke era
implacável.
— Se você
botar a mão no meu irmão outra vez — ele ameaçou –, ou em
qualquer outra pessoa, vou te dar um motivo para chorar
de verdade. Você me
ouviu?
Swanstein
tinha mesmo lágrimas descendo pelo rosto! Eu olhava aquilo
espantado. Ver meninas chorando me deixava muito
incomodado, mas um
companheiro do sexo masculino se desmanchando em
lágrimas, em público,
era realmente fascinante. Eu queria pegar um lugar na
primeira fila e colocar
óculos 3D para o show.
— Você me
ouviu? — meu irmão gritou mais alto. A festa continuava
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imóvel e silenciosa. Então Luke falou vagarosamente
cada palavra. Ele disse:
— Eu. Mato.
Você.
Um amigo
mais desencanado do meu irmão disse para o Swanstein:
— Você nem
foi convidado, cara. Nós só pedimos para você trazer erva.
A palavra
―erva‖ animou um dos veteranos, que
lembrou por que meu
agressor estava lá, para começo de conversa.
Uma menina
solidária de saia jeans desceu os degraus perto de mim
segurando duas toalhas de papel. Ela me entregou aquilo
e depois recuou,
claramente com nojo.
Mas Luke se
aproximou e pisou bem em cima da poeira ensanguentada
na frente do primeiro degrau. Ele inclinou minha cabeça
para trás, com os
dedos debaixo do meu queixo.
— Você está
bem? — perguntou.
Eu estava
zonzo.
— Estou. Mas
tem tanto sangue...
— A cabeça
sempre sangra muito — ele disse. — Lembra quando eu caí
do lustre?
Sorri apesar
da náusea.
— Lembro.
— E da
janela do terceiro andar?
— Sim.
— E do
mastro da escola Montessori?
— Lembro —
falei, e consegui dar uma risadinha. — Mas estou surpreso
por você também lembrar.
— Frame! —
um dos veteranos chamou da mesa do pingue-pongue de
cerveja.
Nós dois
olhamos. O cara riu.
— Esqueci
que tem dois Frames. Luke Frame, próximo jogo?
— Vou jogar
com o Finn — meu irmão respondeu.
— Não —
interrompi. — Vou encontrar a Kate.
— Tá certo —
ele disse. — Mas, quando você voltar, me procure. Vamos
trocar de camisa.
— Como
assim? — perguntei. — Estou coberto de sangue.
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— Eu sei —
ele disse. — Mas a mamãe vai ficar bem menos assustada se
o negócio for comigo. Eu já cheguei em casa coberto de
sangue antes.
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A Kate não estava na sala, na cozinha nem em qualquer
lugar perto do
banheiro, onde uma garota estava vomitando enquanto
outra dava as
coordenadas: ―Pegue isso aqui e prenda o cabelo dela.
Você, pegue um copo
de água. Você, pegue um saco de lixo‖. Ela também não estava no quintal,
quando passei pelo encontro suspeito do pessoal de
jaqueta preta. Atravessei a
entrada da casa e cheguei ao gramado da frente, e lá
estava ela, na calçada, em
pé debaixo de um poste de iluminação com os braços
cruzados.
Parecia que
ela estava com frio — ela não tinha levado casaco. Olhei para
baixo. Parecia que eu tinha fugido do set de um filme
do Tarantino. E não
tinha jaqueta para dar para ela.
— Kate! —
chamei.
Ela se virou
rapidamente. Sob a luz do poste, seus olhos pareciam
grandes e úmidos. Ela ainda não estava chorando, mas estava
quase. Ai, meu
Deus.
Corri pelo
gramado molhado até alcançá-la.
— Você está
bem? — ela perguntou, entorpecida, com um tom estranho
de voz.
— Estou —
respondi. — O que aconteceu? Quem era aquele cara?
— Swanstein
— ela disse, enxugando o nariz na manga. — Estudávamos
juntos na escola de Larchmont. Mas eu saí porque...
Fiquei
esperando pacientemente, com frio, molhado e ensanguentado.
Me meti em
encrenca — ela disse, me olhando diretamente nos olhos. —
Eu bebi muito numa festa e tive de fazer uma lavagem
estomacal. A polícia
apareceu e todo mundo se deu mal. O pessoal da escola
me odiava por causa
disso.
Ela disse
tudo aquilo, até a última parte, com frieza, rápido e sem emoção.
— Eu não sou
quem você pensa — continuou, confessando tudo num
ritmo cada vez mais rápido. — Na Larchmont eu era
baladeira. Queria que
todo mundo soubesse quem eu era, então comecei a beber
mais do que todas
as outras meninas. E a fazer mais coisas com os
garotos...
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Fazer mais
coisas com os garotos. Que coisas? Fiquei revoltado com a
ideia de salsichas viradas e outros movimentos
exóticos.
— Peraí — eu
disse, percebendo algo terrível. — A foto no seu armário.
Aquela não é sua irmã.
Kate mordeu
os lábios.
— É você.
Um cara saiu
da casa e executou uma dança simbólica de como eu estava
me sentindo naquele exato momento. Ele tropeçou na
escada, caiu e vomitou
em si mesmo.
— Você
mentiu para mim — eu disse, fincando os pés no cascalho, entre
a calçada e a rua.
Ela me olhou
desesperada, com os braços largados ao lado do corpo,
incapaz de falar.
— Você disse
que se mudou para a nossa escola para ter aulas mais
avançadas — continuei, falando mais alto. — Você disse
que não bebia.
— Finn...
— Pensei que
você não ligasse para festas, cerveja e todas essas coisas
idiotas do colégio — eu disse.
— Desculpe,
Finbar — ela disse. — Mas, para ser justa, você meio que
mentiu para mim também.
— O quê? —
passei rapidamente de desconfiado a irritado.
Kate cruzou
os braços, e eu não sabia se era um movimento defensivo ou
se era para se proteger do frio.
— Bem, você
não é um vampiro — ela disse.
— Nossa,
Kate — revirei os olhos e pisei no meio-fio. — Isso é ridículo.
É completamente diferente.
— Por quê? —
ela me desafiou, chegando mais perto.
— Eu nunca
disse a ninguém que era um vampiro — falei, olhando para
ela. Do jeito que eu estava na calçada, ficava ainda
mais alto que ela, que
estava na rua.
— Mas as
pessoas acreditaram que você era.
— E eu
acreditei em você! — gritei, tão de repente e com tanta força que
ela deu um passo para trás.
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Aquela era
exatamente a questão. Eu tinha acreditado na Kate. É claro
que, por fora, ela era bonita e confiante, o que
percebi à primeira vista. Mas
depois nós começamos a nos conhecer. E ela me disse que
adorava
matemática. Que não conhecia muita gente na escola. Que
gostava de ler. Que
ficava em casa nas noites de sexta-feira para ver
filmes. E pensei que, mesmo
sendo bonita daquele jeito por fora, por dentro talvez
ela fosse sensível.
Talvez fosse solitária. Talvez fosse como...
— Eu
acreditei que você fosse como eu! — desabafei. — Você me fez
acreditar nisso.
Não sei como
ela reagiu. Em vez de olhar para ela, olhei para o meu tênis,
e não consegui levantar a cabeça de novo. Eu estava
furioso e esfregava o
cascalho do chão no meu tênis, rasgando a borracha.
Ainda assim,
num doloroso e capenga último gesto de bom menino,
perguntei:
— Quer que
eu leve você até a estação de trem?
Fiz a
pergunta por fazer, de braços cruzados. Movimento idiota. Acabei
espalhando mais sangue em mim mesmo.
Ela balançou
a cabeça.
— Minha irmã está vindo me pegar.
Me arrastei
de volta para a festa. Ainda úmido de sangue, parecia que ela
tinha arrancado meu coração fora do peito — e depois
jogado de volta e
manchado minha camisa. A pior parte era que aquilo
estava acontecendo
exatamente como deveria acontecer. Quer dizer, a Kate
pertencia às baladas
de sexta-feira, às festas, fazendo salsichas viradas e
plantando bananeira em
cima de barris de chope. Ela pertencia a outros caras.
Já eu pertencia ao sofá
ao lado da minha mãe, esperando que as irmãs Bennet se
casassem. Festas,
cerveja, quebrar regras, romance — isso não era para
mim. A pior parte foi
saber que a coisa toda tinha sido uma piada.
Na verdade,
a pior parte foi que eu pisei no vômito daquele cara no
caminho de volta para a festa — para dizer adeus ao meu
irmão, abandonar
para sempre este mundo e voltar para casa, para os
limites seguros das minhas
paredes esterilizadas, com meus poemas amadores cheios
de lamúrias e
minhas fantasias.
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— Ei, Finbar!
— a sombra do Luke apareceu nos degraus de cima
segurando uma cerveja. — É hora de jogar!
Tudo bem,
acho de meus lençóis de marinheiro e as irmãs Bennet podiam
esperar. E eu tinha que esperar pela camisa sem sangue
do Luke de qualquer
maneira. Então joguei pingue-pongue de cerveja. E bebi
cerveja de verdade. E,
para ser franco, me saí bem. Sorte de principiante, eu
acho. Virei uns bons
copos, e vencemos duas equipes.
Acho que um
cara com os pés cobertos de vômito, a camisa encharcada
de sangue e os olhos cheios de lágrimas é mesmo bem
ameaçador para
qualquer adversário.
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