domingo, 4 de novembro de 2012

Capítulo 15 (Doce Vampiro)


Por toda minha vida no colégio, eu tinha uma teoria de que você não pode ir
a uma festa a menos que tenha uma razão para estar lá. Eu nunca tinha ido a
uma festa de verdade. Só estive em festas de 15 anos, em que a mãe de alguém
faz o filho convidar todos os colegas da sala, até aqueles que não falam inglês.
Mas acho que nas festas de verdade, nas festas pra valer, você precisa de uma
razão para estar lá. O Luke, por exemplo, está no time de futebol. Isso
significa que ele é convidado para uma série de comemorações de vitórias,
especialmente porque costuma ser o motivo da vitória. Além disso, ele é muito
forte. Assim, é útil para levantar barris e arrombar janelas para fugir da polícia
e coisas do tipo. Também, quando o Luke vai a uma festa, as meninas também
vão.
     Outros caras têm razões diferentes. Muitas vezes, o maior idiota da turma
tem a casa mais incrível e os pais mais maravilhosamente ausentes, então é ele
quem dá as festas. Essa é uma razão e tanto para estar numa festa — quando
ela acontece na sua casa. Depois, tem o garoto que tem um irmão mais velho
ou um tio esquisito que compra a cerveja — ele é o fornecedor. Também tem
o cara com um monte de músicas legais baixadas ilegalmente no iPod — é o
DJ. Se tiver um garoto meio pirado, ou que é reserva do time de basquete, ou
que está um pouco acima do peso, ou que usa mocassim sem meias, há uma
qualidade que pode valorizá-lo diante dos outros caras e das meninas gostosas:
―Mas ele é, tipo, tão engraçado.
     E as meninas? Não. Meninas não precisam de motivo para estar numa

festa. Elas são o motivo da festa.
     Na semana seguinte ao Halloween, o Luke convidou a Kate e a mim para
uma festa do pessoal do time de futebol em New Rochelle, que ficava no meio
do caminho entre Pelham e a cidade da Kate, Larchmont. Todas as outras
vezes em que o Luke tinha me convidado para uma festa, eu havia recusado.
Mas agora tudo era diferente. Agora, além de ser irmão do astro bonzão do
time, eu tinha uma razão para ir. Eu ia levar uma garota.
     A casa onde estava rolando a festa era enorme, à beira-mar, com uma
varanda gigante e um quintal enorme. Era a casa de um jogador do time do
Luke. Meu irmão já tinha ido lá antes e nos mostrou o lugar. A festa já havia
começado quando chegamos, ou seja, a maioria das pessoas já estava bêbada.
Umas meninas tentavam dançar na sala de estar, apesar de não conseguirem
ouvir a música por causa das próprias risadas. A mais alta tentou dançar break
numa música do John Mayer. Quando tentou plantar bananeira e não
conseguiu, acabou derramando Smirnoff Ice no sutiã. Aí ela começou a
chorar, e as outras meninas a cercaram, numa espécie de amontoado emotivo.
     O DJ do iPod tinha cara de nerd. Ele usava aqueles óculos de armação
preta grossa, que nem eram descolados no estilo do Rivers Cuomo. Ponto
para mim, pensei, sou mais descolado do que uma pessoa nesta festa. Mas,
mesmo tendo um jeito molenga, ele se saiu bem quando uma menina
começou a dar uma lição de moral nele, apontando o dedo para o cara
enquanto derramava tudo que estava no copo.
     — Você não pode tocar as músicas do Chris Brown — ela disse. —
Estou falando sério. Tipo, como mulher.
     — Sinto muito — ele balançou a cabeça. — ―Forever é boa demais para
deixar passar. — ―Forever era a música que estava bombando quando a coisa
toda aconteceu! — a menina estava indignada. — É, tipo, a pior que você
poderia escolher.
     — É, mas eu inventei uma dança para essa música — ele respondeu,
então se levantou, girou, deslizou e parou. Ele até que dançava muito bem.
Mesmo assim, eu ainda era mais descolado que ele.
     Na varanda de trás, caras de jaqueta preta acolchoada fumavam e agiam
de forma suspeita. Na garagem, que ficava no porão, caras do penúltimo e do

último ano jogavam pingue-pongue de cerveja. Eu já tinha ouvido uns
veteranos no St. Luke falarem sobre pingue-pongue de cerveja, e tinha certeza
de que o Luke já tinha jogado uma ou duas vezes, mas eu não entendia aquele
jogo. Como beber cerveja e jogar pingue-pongue ao mesmo tempo? Eu pensei
que era assim que se jogava, segurando uma garrafa de cerveja na mão
esquerda e a raquete na direita.
      Mas a cerveja ficava em copos de plástico vermelhos, não em garrafas, e
os copos ficavam agrupados em triângulos em cima da mesa de pingue-
pongue. Não havia raquete, apenas as bolas — e os caras simplesmente
usavam as mãos para jogá-las nos copos de cerveja. Só havia homens. Parecia
que era uma zona do tipo ―proibido garotas. Afastadas cautelosamente mais
de meio metro da mesa de madeira lascada carregada de testosterona, elas
ficavam em grupos de duas ou três, com suas saias jeans, mordendo as bordas
dos próprios copos vermelhos. De alguma forma, mesmo sem participar, elas
sabiam muito sobre as regras do jogo. Mas quantas regras poderia haver para
se atirar uma bola num copo?
      — Seu cotovelo estava um milímetro além da borda da mesa! Esse
arremesso não valeu.
      — O parceiro dele não disse que estava ―se aquecendo depois de acertar
o segundo arremesso e antes de começar a vez do adversário. Ele não vai ter
outra chance até acertar três arremessos consecutivos.
      Aparentemente, havia mais regras do que eu pensava!
      — Você sabe jogar pingue-pongue de cerveja? — perguntei à Kate
enquanto assistíamos ao jogo e segurávamos nossos copos de plástico
vermelhos — com refrigerante. O Luke tinha servido nossa bebida não
alcoólica na cozinha enquanto pegava uma cerveja.
      Kate balançou a cabeça.
      Rapidamente resolvi que, quando chegasse em casa aquela noite,
aprenderia a jogar pingue-pongue de cerveja. Depois que virasse um mestre,
conseguiria derrotar os veteranos, e a Kate ficaria impressionada. E como eu
ia ficar bom naquilo? O Luke praticaria os arremessos comigo. Eu encontraria
uma tábua para servir de mesa, ou poderíamos sacrificar a escrivaninha do
Luke, que nunca era usada mesmo, para praticar. Encheríamos copos de água.

Calculei que teríamos cerca de duas semanas de treino antes que minha mãe
descobrisse os copos em formação triangular e pensasse que tínhamos entrado
para uma seita satânica. Sim, estaríamos treinando para um jogo que envolve
beber cerveja, e éramos menores de idade, mas eu sabia que, na cabeça da
minha mãe, a primeira coisa que surgiria seria um culto satânico.
     Claro que eu nunca tinha bebido cerveja na vida. Talvez fosse melhor
aprender a beber antes de aprender a jogar.
     Ou talvez, se você bebesse muita cerveja, não conseguisse jogar: nenhum
daqueles caras estava conseguindo acertar as bolas de pingue-pongue nos
copos de cerveja. Assim, era um jogo muito chato de assistir. A única coisa
divertida era ver as meninas tentarem correr e pegar as bolas perdidas pelos
cantos cheios de teia de aranha da garagem sem se abaixarem demais com
aquelas saias curtas.
     — Aquele copo de água é usado para limpar a bola? — Kate perguntou,
olhando para um copo vermelho na borda da mesa cheio de água com um
tufo de cabelo sujo flutuando na superfície. — Acho que não está dando
certo.
     — Provavelmente vamos pegar gripe suína apenas por assistir ao jogo —
eu disse. — Vamos ver se o DJ do iPod ainda está tocando Chris Brown?
     — Acho melhor irmos até a cozinha ver seu irmão plantar bananeira em
cima do barril de chope — ela respondeu. — Ele ainda vai fazer aquilo virar
um esporte olímpico.
     Kate começou a subir a escada do porão, e eu a segui com a mão em suas
costas, possessivo mas descolado, quando bum! A porta se abriu com tudo à
nossa frente e atingiu uma viga na parede da garagem. Um garoto bêbado que
não conseguia enxergar um palmo na frente do nariz entrou tropeçando. Kate
e eu recuamos, porque ele desceu tropeçando pelos três degraus. Então parou,
se virou para nós e começou a balançar para frente e para trás, se apoiando
nos calcanhares e depois nos dedos dos pés, nos calcanhares e nos dedos...
     O Cadeira de Balanço apontou para a Kate, com um dedo que tentava
escapar da própria embriaguez.
     — Ei — ele disse, com as pálpebras caídas sobre os olhos. — Eu
conheço você.

     Ela ficou parada, como se esperasse não ser notada. Achando que aquele
garoto nem sequer sabia para quem estava apontando (ou onde estava),
comecei a subir as escadas novamente. Dei o primeiro passo, mas...
     — Katie — ele disse em voz alta, mais alta que o barulho do pingue-
pongue de cerveja e que os gritos entusiasmados das meninas. — Katie
Gallatin.
     — Kate? — falei. Como é que esse cara bizarro conhece a Kate? Uma
sensação defensiva, masculina, encheu meu peito. Sentimento de posse. Como
Bill Compton, de True Blood, sempre rosnava com seu mais feroz sotaque
sulista, a Kate era minha. Por que esse idiota estava falando com a minha
Kate?
     Inclinando-se para trás, o Cadeira de Balanço deu um riso abafado e disse:
     — Eu quase não te reconheci assim, toda vestida.
     Eu nunca havia visto a Kate insegura antes. Agora ela parecia afobada, até
mesmo nervosa. Ela levantou a mão para arrumar o cabelo e os óculos e ficou
olhando para o chão.
     O Cadeira de Balanço começou a falar mais alto.
     — Ei, eu estudava com essa menina em Larchmont — disse, apontando
para a Kate. — Ela era a maior vagabunda. Katie Gallatin era a maior...
     — Ei! — eu me coloquei na frente da Kate, toda encolhida e insegura.
Quase tropecei no primeiro degrau. Eu era um homem forte e grande. Estava
protegendo a garota que eu amava — ou a garota de quem eu gostava pra
caramba. Eu era o Edward Cullen desafiando o lobisomem.
     O Cadeira de Balanço simplesmente deu um passo para o lado e
continuou falando com a Kate.
     — Vai pegar outra bebida, Katie — ele disse. — Assim você desmaia e
faz a polícia aparecer nesta festa.
     — Ei! — falei mais alto. Talvez meu primeiro ―ei não tivesse sido alto o
suficiente.
     A sensação nervosa e agitada que percorria meu corpo não era
exatamente como aquele impulso poderoso que senti com o Chris Perez. Lá
eu estava sozinho, sem ninguém, exceto o Chris Cho, para me ver fazer papel
de idiota. Aqui eu estava cercado por caras descolados do último ano de outra

escola.
     Mas eu tinha de defender a Kate. Eu não precisava bater no cara, apenas
mantê-lo afastado da minha namorada. Quer dizer, da menina que eu não
sabia se era minha namorada. E que me beijou no corredor, mas que podia ou
não estar romanticamente interessada em mim. Mas provavelmente estava.
     Assim, quando o Cadeira de Balanço foi um pouco mais para frente,
estendi a mão na direção dele. Ele mal percebeu meu movimento. Na verdade,
o garoto estava viajando. Parecia um personagem de filme da Sessão da Tarde
que tem o cérebro transformado em ovo mexido por ter aceitado um baseado
de um malandro através da cerca de arame. Suas pálpebras estavam cada vez
mais caídas. Ele estava prestes a desmaiar...
     E me deu um soco no nariz. Pego totalmente desprevenido, fui
derrubado no primeiro degrau. Caí com os joelhos e as mãos no piso do
porão.
     — Vai se ferrar, Swanstein! — alguém gritou. — Você deu um soco no
garoto, seu otário!
     — Você é um cretino, Swanstein! — outra pessoa disse. Ouvi a bola do
pingue-pongue de cerveja quicar ao longe, abandonada, e também o barulho
de saltos batendo no chão empoeirado. Ouvi duas meninas diferentes
perguntarem se eu estava bem. Nenhuma delas era a Kate.
     Eu ouvia as coisas que estavam acontecendo, mas não conseguia ver.
Tudo ficou escuro e confuso durante aqueles dois segundos depois do soco.
Então o impacto da dor atingiu meu rosto como a lâmina de uma espada, do
nariz até o fundo do crânio. A espada de dor parecia fincada no meu rosto,
onde se estabeleceu e começou a pulsar. Meu. Deus. Na minha cabeça, essas
palavras se repetiam no ritmo da dor latejante. Meu. Deus. Maldito
maconheiro! Jurei que, assim que conseguisse levantar, faria com ele o que fiz
com o Chris Perez e muito mais. Eu iria direto para o estoque de sangue e
nada me faria parar. Eu iria...
     Minha fúria me forçou a abrir os olhos. Naquele momento pensei que me
transformaria no Hulk. Sério, rasgaria as costuras da minha camisa polo e faria
aquele...
     Ai, não. Ai, meu Deus. Sangue. Quando ergui o abdome e olhei para

baixo, vi sangue na minha camisa, nos meus braços e mãos, como se alguém
tivesse jogado um balde de tinta em mim. Havia coágulos escuros,
redemoinhos de sangue quase preto grudados nos meus cotovelos dobrados
enquanto eu tirava as mãos do chão e examinava meu corpo. Meu Deus. E eu
sentia o nariz molhado e frio — o que significava que o sangue ainda estava
jorrando. Levei as mãos ao rosto e o sangue escorreu pelos meus dedos. Era
um vulcão em erupção, irrompendo sem parar.
     Mandei um recado de ânimo para o meu estômago: fique calmo, cara.
Aguente firme. Não há necessidade de vomitar aqui na frente de todo mundo.
É sério, está tudo bem. Fechei os olhos até sentir que podia levantar, tentando
ignorar como eu estava úmido, pegajoso e sujo.
     Quando levantei, a Kate havia desaparecido.
     Olhei em volta, confuso, prestando atenção nas meninas, que
cochichavam, e nos veteranos, que balançavam a cabeça, mas não reconheci o
rosto de ninguém. Notei vagamente que alguém tinha chamado o Luke e ouvi
quando ele desceu as escadas empoeiradas. Ele não estava vindo na minha
direção, mas atrás do Cadeira de Balanço, inexplicavelmente curvado sobre a
parte mais próxima da mesa do pingue-pongue de cerveja. O que tinha de
errado com ele? Ninguém tinha dado um soco nele!
     — Que porra é essa, Swanstein? — meu irmão disse. — Estou falando
com você.
     Luke olhava para ele friamente, e Swanstein virou o rosto para encarar
meu irmão. E saca só: ele estava chorando.
     Mas Luke era implacável.
     — Se você botar a mão no meu irmão outra vez — ele ameaçou –, ou em
qualquer outra pessoa, vou te dar um motivo para chorar de verdade. Você me
ouviu?
     Swanstein tinha mesmo lágrimas descendo pelo rosto! Eu olhava aquilo
espantado. Ver meninas chorando me deixava muito incomodado, mas um
companheiro do sexo masculino se desmanchando em lágrimas, em público,
era realmente fascinante. Eu queria pegar um lugar na primeira fila e colocar
óculos 3D para o show.
     — Você me ouviu? — meu irmão gritou mais alto. A festa continuava

imóvel e silenciosa. Então Luke falou vagarosamente cada palavra. Ele disse:
     — Eu. Mato. Você.
     Um amigo mais desencanado do meu irmão disse para o Swanstein:
     — Você nem foi convidado, cara. Nós só pedimos para você trazer erva.
     A palavra ―erva animou um dos veteranos, que lembrou por que meu
agressor estava lá, para começo de conversa.
     Uma menina solidária de saia jeans desceu os degraus perto de mim
segurando duas toalhas de papel. Ela me entregou aquilo e depois recuou,
claramente com nojo.
     Mas Luke se aproximou e pisou bem em cima da poeira ensanguentada
na frente do primeiro degrau. Ele inclinou minha cabeça para trás, com os
dedos debaixo do meu queixo.
     — Você está bem? — perguntou.
     Eu estava zonzo.
     — Estou. Mas tem tanto sangue...
     — A cabeça sempre sangra muito — ele disse. — Lembra quando eu caí
do lustre?
     Sorri apesar da náusea.
     — Lembro.
     — E da janela do terceiro andar?
     — Sim.
     — E do mastro da escola Montessori?
     — Lembro — falei, e consegui dar uma risadinha. — Mas estou surpreso
por você também lembrar.
     — Frame! — um dos veteranos chamou da mesa do pingue-pongue de
cerveja.
     Nós dois olhamos. O cara riu.
     — Esqueci que tem dois Frames. Luke Frame, próximo jogo?
     — Vou jogar com o Finn — meu irmão respondeu.
     — Não — interrompi. — Vou encontrar a Kate.
     — Tá certo — ele disse. — Mas, quando você voltar, me procure. Vamos
trocar de camisa.
     — Como assim? — perguntei. — Estou coberto de sangue.

    — Eu sei — ele disse. — Mas a mamãe vai ficar bem menos assustada se
o negócio for comigo. Eu já cheguei em casa coberto de sangue antes.
A Kate não estava na sala, na cozinha nem em qualquer lugar perto do
banheiro, onde uma garota estava vomitando enquanto outra dava as
coordenadas: ―Pegue isso aqui e prenda o cabelo dela. Você, pegue um copo
de água. Você, pegue um saco de lixo. Ela também não estava no quintal,
quando passei pelo encontro suspeito do pessoal de jaqueta preta. Atravessei a
entrada da casa e cheguei ao gramado da frente, e lá estava ela, na calçada, em
pé debaixo de um poste de iluminação com os braços cruzados.
     Parecia que ela estava com frio — ela não tinha levado casaco. Olhei para
baixo. Parecia que eu tinha fugido do set de um filme do Tarantino. E não
tinha jaqueta para dar para ela.
     — Kate! — chamei.
     Ela se virou rapidamente. Sob a luz do poste, seus olhos pareciam
grandes e úmidos. Ela ainda não estava chorando, mas estava quase. Ai, meu
Deus.
     Corri pelo gramado molhado até alcançá-la.
     — Você está bem? — ela perguntou, entorpecida, com um tom estranho
de voz.
     — Estou — respondi. — O que aconteceu? Quem era aquele cara?
     — Swanstein — ela disse, enxugando o nariz na manga. — Estudávamos
juntos na escola de Larchmont. Mas eu saí porque...
     Fiquei esperando pacientemente, com frio, molhado e ensanguentado.
     Me meti em encrenca — ela disse, me olhando diretamente nos olhos. —
Eu bebi muito numa festa e tive de fazer uma lavagem estomacal. A polícia
apareceu e todo mundo se deu mal. O pessoal da escola me odiava por causa
disso.
     Ela disse tudo aquilo, até a última parte, com frieza, rápido e sem emoção.
     — Eu não sou quem você pensa — continuou, confessando tudo num
ritmo cada vez mais rápido. — Na Larchmont eu era baladeira. Queria que
todo mundo soubesse quem eu era, então comecei a beber mais do que todas
as outras meninas. E a fazer mais coisas com os garotos...

     Fazer mais coisas com os garotos. Que coisas? Fiquei revoltado com a
ideia de salsichas viradas e outros movimentos exóticos.
     — Peraí — eu disse, percebendo algo terrível. — A foto no seu armário.
Aquela não é sua irmã.
     Kate mordeu os lábios.
     — É você.
     Um cara saiu da casa e executou uma dança simbólica de como eu estava
me sentindo naquele exato momento. Ele tropeçou na escada, caiu e vomitou
em si mesmo.
     — Você mentiu para mim — eu disse, fincando os pés no cascalho, entre
a calçada e a rua.
     Ela me olhou desesperada, com os braços largados ao lado do corpo,
incapaz de falar.
     — Você disse que se mudou para a nossa escola para ter aulas mais
avançadas — continuei, falando mais alto. — Você disse que não bebia.
     — Finn...
     — Pensei que você não ligasse para festas, cerveja e todas essas coisas
idiotas do colégio — eu disse.
     — Desculpe, Finbar — ela disse. — Mas, para ser justa, você meio que
mentiu para mim também.
     — O quê? — passei rapidamente de desconfiado a irritado.
     Kate cruzou os braços, e eu não sabia se era um movimento defensivo ou
se era para se proteger do frio.
     — Bem, você não é um vampiro — ela disse.
     — Nossa, Kate — revirei os olhos e pisei no meio-fio. — Isso é ridículo.
É completamente diferente.
     — Por quê? — ela me desafiou, chegando mais perto.
     — Eu nunca disse a ninguém que era um vampiro — falei, olhando para
ela. Do jeito que eu estava na calçada, ficava ainda mais alto que ela, que
estava na rua.
     — Mas as pessoas acreditaram que você era.
     — E eu acreditei em você! — gritei, tão de repente e com tanta força que
ela deu um passo para trás.

     Aquela era exatamente a questão. Eu tinha acreditado na Kate. É claro
que, por fora, ela era bonita e confiante, o que percebi à primeira vista. Mas
depois nós começamos a nos conhecer. E ela me disse que adorava
matemática. Que não conhecia muita gente na escola. Que gostava de ler. Que
ficava em casa nas noites de sexta-feira para ver filmes. E pensei que, mesmo
sendo bonita daquele jeito por fora, por dentro talvez ela fosse sensível.
Talvez fosse solitária. Talvez fosse como...
     — Eu acreditei que você fosse como eu! — desabafei. — Você me fez
acreditar nisso.
     Não sei como ela reagiu. Em vez de olhar para ela, olhei para o meu tênis,
e não consegui levantar a cabeça de novo. Eu estava furioso e esfregava o
cascalho do chão no meu tênis, rasgando a borracha.
     Ainda assim, num doloroso e capenga último gesto de bom menino,
perguntei:
     — Quer que eu leve você até a estação de trem?
     Fiz a pergunta por fazer, de braços cruzados. Movimento idiota. Acabei
espalhando mais sangue em mim mesmo.
     Ela balançou a cabeça.
     — Minha irmã está vindo me pegar.
     Me arrastei de volta para a festa. Ainda úmido de sangue, parecia que ela
tinha arrancado meu coração fora do peito — e depois jogado de volta e
manchado minha camisa. A pior parte era que aquilo estava acontecendo
exatamente como deveria acontecer. Quer dizer, a Kate pertencia às baladas
de sexta-feira, às festas, fazendo salsichas viradas e plantando bananeira em
cima de barris de chope. Ela pertencia a outros caras. Já eu pertencia ao sofá
ao lado da minha mãe, esperando que as irmãs Bennet se casassem. Festas,
cerveja, quebrar regras, romance — isso não era para mim. A pior parte foi
saber que a coisa toda tinha sido uma piada.
     Na verdade, a pior parte foi que eu pisei no vômito daquele cara no
caminho de volta para a festa — para dizer adeus ao meu irmão, abandonar
para sempre este mundo e voltar para casa, para os limites seguros das minhas
paredes esterilizadas, com meus poemas amadores cheios de lamúrias e
minhas fantasias.

    — Ei, Finbar! — a sombra do Luke apareceu nos degraus de cima
segurando uma cerveja. — É hora de jogar!
    Tudo bem, acho de meus lençóis de marinheiro e as irmãs Bennet podiam
esperar. E eu tinha que esperar pela camisa sem sangue do Luke de qualquer
maneira. Então joguei pingue-pongue de cerveja. E bebi cerveja de verdade. E,
para ser franco, me saí bem. Sorte de principiante, eu acho. Virei uns bons
copos, e vencemos duas equipes.
    Acho que um cara com os pés cobertos de vômito, a camisa encharcada
de sangue e os olhos cheios de lágrimas é mesmo bem ameaçador para
qualquer adversário.

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